Uma pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (27) aponta que 52% dos brasileiros acreditam que as tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aos produtos brasileiros têm como objetivo principal favorecer a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. O levantamento, realizado entre os dias 22 e 24 de julho, ouviu 2.016 eleitores em 130 municípios brasileiros, com margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Percepção divide eleitorado e reforça polarização
A pesquisa revela uma forte divisão partidária na interpretação das ações de Trump. Entre os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 73% concordam que as tarifas têm motivação eleitoral interna, visando impulsionar o nome de Flávio Bolsonaro – principal nome da oposição e herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Já entre os eleitores do senador, apenas 28% compartilham dessa visão, enquanto 62% rejeitam a ideia.
Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, o resultado reflete como a política externa americana é lida pelo público brasileiro através de lentes domésticas. "A população tende a interpretar movimentos internacionais como parte do jogo político interno, especialmente em um contexto de polarização acirrada", afirmou em entrevista ao blog.
Queda de braço diplomática: Itamaraty nega vistos a americanos
A pesquisa foi concluída antes de o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) negar, na última quinta-feira (25), a emissão de vistos para uma comitiva de funcionários do governo americano que viria ao Brasil para questionar o processo eleitoral brasileiro. A medida foi vista como uma resposta às tarifas e à retórica de Trump, que tem criticado a segurança do sistema eletrônico de votação do país.
Segundo fontes diplomáticas, os funcionários americanos integravam uma missão não oficial, mas que teria como objetivo "verificar a transparência das eleições" – argumento rechaçado pelo governo brasileiro. "Não há razão para questionar nosso sistema eleitoral, que é referência mundial", declarou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Tarifas impactam economia e opinião pública
As tarifas impostas por Trump no início de julho atingem principalmente produtos siderúrgicos, suco de laranja e etanol, setores estratégicos para a economia brasileira. O governo brasileiro estima perdas de até US$ 3 bilhões em exportações anuais. A pesquisa Datafolha também aponta que 51% dos entrevistados avaliam que o presidente Lula fez "menos do que deveria" nas negociações para reverter as tarifas. Apenas 28% consideram que a reação foi adequada.
O economista Marcos Lisboa, do Insper, avalia que a percepção pública pode ser influenciada pela falta de resultados concretos: "A população espera uma resposta firme, mas o governo tem poucas ferramentas para retaliar sem prejudicar ainda mais o consumidor brasileiro", explicou.
Flávio Bolsonaro reage e nega interferência
O senador Flávio Bolsonaro, que lidera as intenções de voto para a sucessão presidencial de 2026, negou qualquer articulação com Trump. "Não tenho ingerência sobre as políticas comerciais dos EUA. Essa pesquisa é um tentativa de me associar a algo que não controlo", disse em nota. Apesar da negativa, a proximidade entre Flávio e o ex-presidente Jair Bolsonaro com Trump é conhecida. Em 2024, Flávio visitou Washington e se encontrou com assessores do republicano.
Trump mantém retórica agressiva contra Brasil
Desde que reassumiu a Casa Branca em 2025, Trump tem adotado uma postura mais dura em relação ao Brasil, a quem acusa de "práticas desleais de comércio". Em discurso recente, ele afirmou que "o Brasil se aproveita dos EUA há décadas" e que "chegou a hora de colocar os americanos em primeiro lugar". A pesquisa Datafolha mostra que 43% dos brasileiros têm uma visão negativa de Trump, enquanto 32% o avaliam positivamente.
Implicações para as eleições de 2026
Com a corrida presidencial se intensificando, a percepção das tarifas como instrumento de interferência pode influenciar o debate eleitoral. Especialistas apontam que o tema pode beneficiar Lula ao reforçar a ideia de que a oposição estaria alinhada com interesses estrangeiros. Por outro lado, Flávio Bolsonaro pode usar a crise tarifária para criticar a gestão econômica do governo e se apresentar como defensor dos interesses nacionais.
A pesquisa completa pode ser acessada no site do Datafolha. O instituto também perguntou sobre a aprovação do governo Lula, que se manteve estável em 36% de ótimo/bom, contra 30% de ruim/péssimo.



