Pesquisa aponta que brasileiros veem risco de interferência dos EUA contra facções
Brasileiros veem risco de interferência dos EUA contra facções

Uma pesquisa inédita revelou que a maioria dos brasileiros enxerga riscos de interferência externa em uma eventual ação dos Estados Unidos contra facções criminosas no Brasil. O levantamento, realizado pelo Instituto Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que 68% dos entrevistados consideram que uma operação conjunta com os EUA poderia resultar em ingerência na soberania nacional.

Detalhes da pesquisa

O estudo ouviu 2.000 pessoas em todas as regiões do país entre os dias 10 e 14 de junho de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Quando questionados especificamente sobre a possibilidade de os EUA liderarem ações de combate ao crime organizado no Brasil, 54% dos participantes se disseram contrários a qualquer tipo de intervenção direta.

Segundo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados refletem uma preocupação histórica com a autonomia nacional. "O brasileiro valoriza a cooperação internacional, mas não abre mão do controle sobre suas próprias forças de segurança. Há um receio legítimo de que a presença estrangeira possa ultrapassar os limites do apoio técnico e operacional", afirmou.

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Apoio à cooperação

Apesar das ressalvas, 72% dos entrevistados apoiam a troca de informações e o treinamento conjunto com agências dos EUA. A pesquisa também indica que 61% acreditam que a cooperação pode ser eficaz no combate ao tráfico de drogas e armas. No entanto, apenas 23% defendem a realização de operações militares conjuntas em território brasileiro.

O levantamento ocorre em meio a discussões sobre parcerias entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho. Em maio, o governo brasileiro anunciou um acordo de cooperação técnica com o FBI, sem previsão de ações armadas.

Impacto na opinião pública

Os resultados mostram uma divisão geracional: entre jovens de 16 a 24 anos, 58% veem com bons olhos a participação dos EUA, enquanto entre maiores de 60 anos esse índice cai para 35%. A renda também influencia: 65% dos que ganham acima de cinco salários mínimos são favoráveis à cooperação ampla, contra 48% na faixa de até dois salários.

Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, a desconfiança reflete memórias de intervenções históricas na América Latina. "O Brasil não tem tradição de intervenção direta dos EUA, mas o imaginário coletivo ainda carrega exemplos de outros países. Isso gera cautela, mesmo quando a proposta é técnica", explicou.

A pesquisa será apresentada nesta quinta-feira em seminário no Rio de Janeiro, com a presença de representantes do Ministério da Justiça e da embaixada dos Estados Unidos.

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