A presidente do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Clara Paulino, afirmou que o Brasil é fraco em soft power e que ainda não compreende seu real poder nessa área. Em entrevista ao Eu &, do Valor Econômico, ela destacou que o país possui um enorme potencial cultural, mas não o utiliza estrategicamente para influenciar o cenário internacional.
O conceito de soft power e a posição do Brasil
Soft power, termo cunhado pelo cientista político Joseph Nye, refere-se à capacidade de um país de influenciar outros por meio de atratividade cultural, valores políticos e políticas externas, em vez de coerção ou força militar. Segundo Clara Paulino, o Brasil tem ativos culturais imensos, como música, dança, culinária e festivais, mas falha em transformá-los em influência global.
“O Brasil é um país com uma riqueza cultural imensa, mas a gente ainda não entendeu como usar isso a nosso favor. Somos fracos em soft power porque não temos uma estratégia clara de diplomacia cultural”, disse Paulino.
O papel do Theatro Municipal e da cultura na política externa
Para a presidente, instituições como o Theatro Municipal do Rio podem ser protagonistas nesse processo. O teatro, que completou 115 anos em 2024, é um símbolo da cultura carioca e brasileira, mas precisa de mais apoio para projetos de intercâmbio e promoção internacional.
“O Theatro Municipal é um patrimônio que pode ser usado como embaixada cultural. Mas falta investimento e visão de longo prazo. O governo precisa entender que cultura não é gasto, é investimento em imagem e influência”, afirmou.
Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, o orçamento para cultura em 2025 foi de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, mas apenas 5% desse valor foi destinado a ações de diplomacia cultural. Para Paulino, esse montante é insuficiente diante do potencial do país.
Comparação com outros países e exemplos de sucesso
Países como França, Reino Unido e Coreia do Sul são frequentemente citados como exemplos de soft power bem-sucedido. A França, por exemplo, investe pesadamente na Aliança Francesa e no Institut Français, enquanto a Coreia do Sul impulsionou o K-pop e os dramas coreanos como ferramentas de influência global.
“A Coreia do Sul, em poucas décadas, transformou sua cultura em um dos principais motores de sua economia e influência. O Brasil poderia fazer o mesmo com o samba, o forró, a capoeira, a literatura. Mas falta coordenação e vontade política”, comparou Paulino.
Desafios e perspectivas para o soft power brasileiro
Entre os principais desafios, Paulino cita a falta de continuidade em políticas culturais, a burocracia e o baixo financiamento. Ela defende a criação de uma agência nacional de diplomacia cultural, nos moldes do British Council ou do Goethe-Institut.
“Precisamos de uma instituição dedicada exclusivamente a promover a cultura brasileira no exterior, com orçamento estável e profissionais qualificados. Não adianta fazer ações pontuais em anos eleitorais”, criticou.
Apesar das dificuldades, Paulino se mostra otimista. “O Brasil tem um soft power enorme, mas adormecido. Se despertarmos esse potencial, podemos mudar a forma como o mundo nos vê e, consequentemente, nossa posição geopolítica.”
A entrevista completa com Clara Paulino está disponível no site do Valor Econômico.



