No final dos anos 1980, Brasil e Argentina assinaram uma série de acordos que transformaram décadas de rivalidade em uma parceria estratégica. Esses tratados não apenas enterraram disputas históricas, mas também lançaram as sementes do Mercosul, bloco que hoje enfrenta tensões renovadas com a chegada de Javier Milei à presidência argentina.
O contexto da rivalidade
Durante séculos, Brasil e Argentina disputaram hegemonia na América do Sul. Desde conflitos coloniais até competições econômicas e diplomáticas, os dois gigantes sul-americanos raramente alinharam interesses. A rivalidade atingiu o pico no século XIX e início do XX, com episódios como a Guerra da Cisplatina (1825-1828) e disputas navais.
Os acordos da década de 1980
O ponto de virada ocorreu com os presidentes José Sarney (Brasil) e Raúl Alfonsín (Argentina). Em 30 de novembro de 1985, os dois líderes se encontraram em Foz do Iguaçu para firmar a Declaração de Iguaçu, um marco que estabeleceu os princípios de cooperação bilateral. Em 1988, assinaram o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento, que previa a criação de uma área de livre comércio em dez anos.
Outro passo crucial foi o Ato de Buenos Aires (1990), já sob os presidentes Fernando Collor e Carlos Menem, que acelerou o cronograma. Esses acordos culminaram no Tratado de Assunção (1991), que criou o Mercosul, inicialmente com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Impactos e legado
A cooperação econômica gerou resultados expressivos: o comércio bilateral saltou de US$ 2,5 bilhões em 1985 para mais de US$ 30 bilhões em 2011. Além disso, projetos conjuntos em energia nuclear (como a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares) demonstraram confiança mútua.
A crise atual com Milei
No entanto, a eleição de Javier Milei em 2023 trouxe novas tensões. O presidente argentino, crítico do Mercosul, defende maior abertura unilateral e questiona as regras do bloco. Em 2024, protagonizou embates com o governo Lula, reavivando desavenças que pareciam superadas. Analistas apontam que, embora os acordos dos anos 1980 tenham consolidado uma base sólida, a instabilidade política argentina e as diferenças ideológicas podem testar a resiliência da parceria.
Segundo o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, "os acordos de integração foram o ponto mais alto da diplomacia brasileira e argentina no século XX, mas exigem atualização constante para sobreviver a crises políticas".
O futuro da cooperação
Apesar das turbulências, o legado dos tratados permanece. As relações Brasil-Argentina são as mais densas da América do Sul, com laços comerciais, culturais e de infraestrutura. A recuperação do espírito de Iguaçu dependerá da capacidade de ambos os países de separar divergências ideológicas dos interesses estratégicos comuns.



