Ortega anuncia fim das eleições na Nicarágua e consolida ditadura
Ortega anuncia fim das eleições e consolida ditadura

O presidente Daniel Ortega anunciou que seus adversários jamais voltarão ao governo da Nicarágua pelas urnas: “Aqui não voltará a haver eleições”. Com isso, não inaugurou uma ditadura, apenas decidiu parar de fingir que a Nicarágua é democrática.

O desmantelamento da democracia

Após retornar à presidência pelo voto, em 2007, o extremista de esquerda chutou a escada e desmantelou o arcabouço democrático. Subordinou tribunais, manipulou regras eleitorais e reprimiu protestos. Antes da eleição de 2021, encarcerou pré-candidatos da oposição. Desde então, a perseguição avançou contra empresários, estudantes, jornalistas, religiosos e antigos correligionários. Milhares foram exilados. O fim das eleições consuma uma obra construída metodicamente.

A ironia do aniversário da revolução

Há uma ironia especialmente degradante em oficializar o golpe no aniversário da insurreição que derrubou a família Somoza, em 1979. A revolução sandinista que prometia libertar a Nicarágua de uma dinastia cimentou outra. A mulher de Ortega, Rosario Murillo, foi elevada a “copresidente”, os filhos ocupam posições de influência e o Estado foi subvertido em patrimônio político do clã. A proscrição das urnas talvez proteja o regime no presente, mas deve tornar a sucessão mais dependente da truculência e mais sujeita a rupturas.

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O cálculo internacional

Ortega espera que esse futuro interesse pouco ao resto do mundo. China e Rússia oferecem apoio sem perguntas inconvenientes. Os Estados Unidos perderam influência, as democracias latino-americanas se dividem segundo afinidades ideológicas e outras crises disputam a atenção internacional. O tirano mostra fraqueza, não força, ao temer até uma eleição fraudulenta dentro de casa, mas comporta-se com audácia diante do exterior porque espera que a indignação logo se dissipe.

Cúmplices no Brasil

O governo brasileiro é cúmplice nesse cálculo. Lula já comparou a longevidade de seu amigo Ortega no poder à das premiês Angela Merkel e Margaret Thatcher, como se fossem coisas equivalentes. O próprio nicaraguense encarregou-se de demolir o argumento. Aquelas líderes permaneceram no poder enquanto obtiveram o consentimento dos eleitores; Ortega acaba de proclamar que jamais tolerará um veredicto adverso. O silêncio gritante do lulopetismo comprova sua hipocrisia: a democracia é tratada como detalhe inconveniente sempre que é seviciada pelos “companheiros” em Caracas, Havana ou Moscou.

Resposta internacional necessária

A comunidade internacional não deveria limitar-se a divulgar notas de repúdio. Cabe coordenar pressão máxima sobre os bens e negócios da família governante, suas empresas de fachada e os operadores civis, policiais e judiciais da repressão. Essas medidas precisam preservar remessas, ajuda humanitária e proteção aos exilados, além de apoiar jornalistas e organizações nicaraguenses que ainda documentam os crimes do regime.

Lições para o futuro

Até autocratas costumam conservar eleições de fachada porque reconhecem no voto uma fonte de legitimidade que não conseguem substituir inteiramente. Ortega resolveu dispensá-las para entregar o país à própria família. Se essa ruptura não tiver consequências, sua lição será ouvida muito além da Nicarágua: já se pode negar abertamente aos cidadãos o direito de mudar o governo sem pagar por isso.

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