A República Democrática do Congo enfrenta uma nova onda devastadora do vírus ebola. Em apenas dez dias, o número de casos saltou para mais de 3 mil, com 1.354 mortes confirmadas desde o início oficial do surto em 15 de maio. A província de Ituri, no nordeste do país, concentra cerca de 90% das infecções registradas, tornando-se o epicentro da 17ª epidemia de ebola na história do país.
Ituri: o coração da crise
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde congolês nesta segunda-feira mostram que a situação é particularmente grave em Ituri, onde a combinação de infraestrutura de saúde precária e conflitos armados dificulta o controle da doença. A província responde por 2.700 dos mais de 3 mil casos notificados. A cepa circulante é o Bundibugyo, uma variante menos comum do ebola, para a qual não há vacina ou tratamento específico aprovado.
“Estamos diante de um cenário alarmante. A falta de imunizantes e terapias eficazes contra o Bundibugyo, aliada à insegurança na região, torna o combate ao vírus extremamente desafiador”, afirmou um porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Kinshasa. A OMS também destacou que a letalidade do surto atual é de aproximadamente 45%, dentro do esperado para essa cepa.
Conflitos armados agravam a propagação
A região de Ituri é palco de confrontos entre grupos armados e forças governamentais, o que dificulta o acesso de equipes médicas e a realização de campanhas de vacinação. Desde 2022, a província vive sob estado de sítio intermitente, com ações militares que deslocam populações e sobrecarregam os serviços de saúde. Segundo relatório do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), mais de 1,5 milhão de pessoas estão deslocadas internamente na região, muitas vivendo em abrigos superlotados, onde o risco de transmissão é alto.
A situação ainda é agravada pela baixa confiança da população nas equipes de saúde, alimentada por décadas de conflito e desinformação. Em algumas comunidades, há resistência a enterros seguros e ao isolamento de doentes, o que favorece cadeias de transmissão não rastreadas.
Resposta internacional e desafios logísticos
A OMS e parceiros como Médicos Sem Fronteiras (MSF) intensificaram as operações em Ituri, mas enfrentam dificuldades logísticas enormes. As estradas precárias e a temporada de chuvas dificultam o transporte de suprimentos e equipes. Além disso, o surto atual já é o segundo maior já registrado no país, atrás apenas da epidemia de 2018-2020, que matou mais de 2.200 pessoas.
Até o momento, não há previsão de desenvolvimento de uma vacina específica para o Bundibugyo. A OMS coordena estudos para testar terapias de anticorpos monoclonais, mas os resultados ainda são preliminares. Enquanto isso, o controle se baseia em medidas clássicas: rastreamento de contatos, isolamento de casos suspeitos e enterros seguros.
Impacto regional e alerta global
O governo congolês declarou estado de emergência sanitária nas províncias de Ituri e Kivu do Norte, onde também foram registrados casos esporádicos. Países vizinhos, como Uganda e Ruanda, reforçaram a vigilância nas fronteiras, temendo uma propagação transnacional. A OMS, no entanto, ainda não recomenda restrições de viagem, mas pede que todos os países estejam preparados para detectar e responder a possíveis casos importados.
Com mais de 3 mil infectados em menos de três meses, a epidemia de ebola na RDC se consolida como uma das mais graves da última década. A falta de vacina e a instabilidade na região de Ituri sugerem que o número de casos e mortes pode continuar subindo nas próximas semanas.



