Aos 50, designer larga moda e vira jardineiro no centro de SP
Aos 50, designer larga moda e vira jardineiro no centro de SP

Aos 50 anos, o designer têxtil Eduardo Paziam abandonou uma carreira de contratos milionários e coleções internacionais para se tornar jardineiro no centro de São Paulo. Desde 2023, ele já plantou mais de 5 mil mudas nativas da Mata Atlântica por meio do projeto Pazipê. Sua motivação não é reconhecimento nem retorno financeiro. “Eu não quero deixar para geração futura o que eu recebi das gerações passadas. Tem gente que nem nasceu e vai ser beneficiada por isso que eu estou fazendo. Para mim isso é fascinante”, afirma.

Da insatisfação à mudança de vida

A transformação não veio de uma decisão súbita, mas de um acúmulo de reflexões. “Eu comecei a olhar para a indústria têxtil e ver que ela faz um uso excessivo de água. Além disso, responder cliente por WhatsApp me fazia sentir que eu estava atrasado para tudo, vivia angustiado, e me perguntei o que eu estava fazendo da minha vida”, desabafa.

Ele decidiu reavaliar sua vida e percebeu que, com algumas mudanças, o dinheiro acumulado e investido ao longo dos anos seria suficiente por um bom tempo. “Quando eu parei de trabalhar, eu fui curtir a vida. Ser jardineiro do centro é uma consequência das escolhas que eu fiz lá atrás”, explica.

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O início do projeto Pazipê

De volta a São Paulo, descobriu que a Subprefeitura da Sé instalaria dois jardins de chuva em frente ao seu prédio, na República. A estrutura ajuda na permeabilidade do solo, escoando a água da chuva para o próprio jardim e minimizando alagamentos. “No dia do plantio, eles falaram que aquilo era público, da população, que quem quisesse cuidar, poderia. E eu falei: pode deixar que eu cuido.” Mas nada vingou. Frustrado, partiu para uma temporada pela Ásia.

“Foi uma viagem que mexeu muito comigo, que eu comecei a pensar ‘caramba! É muito mais legal ser do que ter’, e quando eu voltei pra casa eu falei: ‘eu vou fazer acontecer’”, conta. Passou a ter uma rotina puxada para cuidar das plantas. Moradores da Avenida Ipiranga e da Avenida São Luís pediram que ele cuidasse dos canteiros.

Foi quando apareceu Francisco, um jovem venezuelano que se tornou seu principal parceiro de plantio, incentivando-o a priorizar espécies típicas da Mata Atlântica. “Aquele menino que era para ser meu assistente foi meu professor”, diz Paziam. Em 23 de junho de 2023, plantou um ipê amarelo que tinha em casa — origem do nome do projeto: Pazipê. “Antes eu era o Eduardo Paziam, hoje, com 56 anos, eu sou o Pazi”, conta.

Rotina e impacto

Pazi começa o dia às 5h30, com botina de borracha e roupas de luxo antigas. Recolhe lixo, rega canteiros e, à tarde, planta novas mudas — em média dez por dia. “Hoje eu trabalho dez vezes mais do que quando eu trabalhava, mas enquanto eu tiver força eu vou continuar”, afirma. São 33 canteiros na Av. São Luís, dois jardins de chuva na Av. Ipiranga e um pomar na Praça Dom José Gaspar.

A manutenção é financiada por pessoas comuns, comerciantes e parcerias privadas, pelo programa “Adote uma Praça”. Conta com “guardiões” que regam, doam mudas e avisam sobre danos. Um deles é Celso Jamelo, dono da Bankatelier: “Ser guardião exige presença, respeito e responsabilidade. A praça estava intransitável, as pessoas tinham medo de passar aqui, e agora você vê gente frequentando.”

Pazi afirma que seu maior ganho é a satisfação pessoal. “Eu não ganho nada material, pelo contrário, materialmente eu só gasto. Já foram mais de 80 mil reais dos meus recursos, além de tempo, energia e o final da juventude que me resta.” “Mas eu espero entrar na avenida São Luís daqui 10 anos e ver uma floresta”, reflete.

Espécies nativas e biodiversidade

A escolha das espécies não é estética. “Aqui, antigamente, era Mata Atlântica e a gente não pode trazer uma planta de outro bioma porque, senão, ela se torna exótica e tem comportamento invasor: replica descontroladamente, rouba espaço das nativas e pode levar espécies à extinção”, explica. Em um canteiro, já reúne dois pau-brasil, quatro ipês-amarelos, cinco ipês-brancos, embaúba-prateada, palmeira-juçara e uma araucária. “Aqui futuramente vai ser uma florestinha de bolso”, diz.

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Plantas ornamentais, apesar de bonitas, não trazem benefício ambiental: “Não atraem pássaros nem abelhas, não fazem sombra adequada nem ajudam a reduzir ruído ou poluição.” Ele defende a remoção de espécies invasoras, transformando-as em adubo. “O problema é que os moradores compram plantas ornamentais para decorar o apartamento e, quando crescem, descartam nos canteiros públicos sem saber do impacto.” Durante a visita da reportagem, pássaros, abelhas e borboletas circulavam entre os canteiros da Avenida São Luís, sinal de que a estratégia começa a funcionar.