Uma receita comprada de um grego, guardada em segredo por uma família mineira e servida há quase 70 anos no mesmo endereço. Essa é a história da pizza grega do Bar do Futrica, um clássico da gastronomia de boteco de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. A fórmula permanece secreta, guardada a sete chaves pela família Vieira, e foi passada de geração em geração sem nunca sair do balcão do bar.
Neste Dia da Pizza, celebrado em 10 de julho, o g1 conta a história da iguaria que resistiu às transformações do Centro da cidade e se tornou um clássico da gastronomia juiz-forana.
Uma receita comprada de um grego
A história começou em 10 de abril de 1957. Naquele dia, o mineiro Geraldo Vieira, natural de Goianá, também na Zona da Mata mineira, conhecido desde a infância pelo apelido de Futrica, se mudou para Juiz de Fora em busca de trabalho e comprou um pequeno bar na Galeria Hallack. Mas o negócio veio com um bônus inesperado. O antigo proprietário era grego e, além do ponto comercial, vendeu também a receita da pizza preparada no local.
"Meu pai comprou o bar de um grego e também adquiriu a fórmula da pizza, que mantemos até hoje. Foi ali que começou a história do Bar do Futrica", conta Sidney Vieira, de 75 anos, filho de Geraldo e atual responsável pelo estabelecimento. Sidney nasceu e cresceu em Juiz de Fora. Aos seis anos, já acompanhava a rotina do bar e via de perto o pai, que morreu em 1977, preparar a pizza que, décadas depois, ainda atrai moradores e visitantes.
O segredo cabe em um envelope
A fama foi construída no boca a boca. Quem experimentava levava um amigo e depois voltava com a família. Assim, a pizza conquistou espaço entre os sabores mais tradicionais da cidade. Ao longo dos anos, a Galeria Hallack mudou. O Centro ganhou novos comércios, redes de alimentação chegaram à cidade e os aplicativos transformaram a maneira de pedir comida. No Futrica, porém, uma tradição permaneceu intacta.
A receita continua guardada em um envelope e é conhecida por poucas pessoas. A massa fina é preparada diariamente na cozinha do bar e recebe uma combinação de ingredientes mantida em absoluto sigilo. "A receita fica guardada em um envelope. Não passo para ninguém. Não posso entregar o ouro, concorda?", brincou Sidney. Entre as poucas pessoas autorizadas a conhecer o segredo está Déia, responsável pela produção das pizzas há mais de 40 anos. O único ingrediente confirmado é o queijo.
Um bar que parou no tempo
O Futrica também preserva outra tradição: o ambiente. O balcão é o mesmo e continua a reunir trabalhadores, aposentados, comerciantes, estudantes e clientes que frequentam o local há décadas. Alguns clientes chegam antes mesmo do café da manhã. Outros aparecem no intervalo do trabalho, na hora do almoço, no meio da tarde ou antes de voltar para casa. No Futrica, não existe horário para comer pizza.
"Abro o bar cedo, o relógio nem marca 7h, e já tem pizza na estufa", contou Sidney. Ao longo do dia, dezenas de pessoas passam pelo estabelecimento em busca da tradicional pizza grega.
Quatro gerações
O Futrica continua sendo um negócio familiar. Na década de 1970, quando Geraldo começou a reduzir o ritmo de trabalho, Sidney assumiu o bar ao lado do irmão Ademir. Hoje, divide a rotina com o filho Rondinely Vieira, de 49 anos, o neto Nycolas Vieira, de 20, e a nora. Em 2027, o bar completa sete décadas de funcionamento, sempre no mesmo endereço.
Para Sidney, porém, o maior legado deixado pelo pai vai além da receita. "Meu pai deixou o maior tesouro para nós: o nome dele, que era um apelido. A gente honra esse nome todos os dias e quer continuar honrando por muitos anos". A receita segue guardada em um envelope. A tradição, porém, está à vista de quem passa pela Galeria Hallack: quase 70 anos de história, quatro gerações da mesma família e uma pizza que se tornou um símbolo da gastronomia de Juiz de Fora.



