Uísque no Brasil: consumo deixa status de lado e busca identidade e experiência
Uísque busca identidade e experiência, deixando status de lado

O uísque no Brasil está passando por uma transformação profunda. Não basta mais ostentar uma marca famosa ou pagar caro por uma garrafa: o consumidor busca uma bebida que converse com o momento, o lugar e a imagem que constrói de si mesmo. A constatação é de especialistas que observam o mercado de perto, como Maurício Porto, dono do bar Caledonia Whisky & Co., e a mixologista Vitória Kurihara.

Nicho e identidade: o novo norte do consumo

Segundo Maurício Porto, “o cliente está cada vez mais se identificando com rótulos de nicho”. Ele explica que o consumidor observa o cenário, vê onde está inserido e bebe de acordo. Em uma festa, busca um tipo de bebida; em um balcão de alta coquetelaria, outro. E ambos os perfis precisam ser contemplados. “O consumidor está se movimentando. Ele quer sair da fidelização com a marca e ir em busca de rótulos que entreguem qualidade, complexidade e diferencial sensorial. Esse caminho o leva a ser mais fiel à experiência e à sua identidade — que pode ser individual, mas é, principalmente, de grupo. Ele toma rótulos que fazem sentido dentro do seu lifestyle comum. Não é mais o status pelo status; tem que fazer sentido”, declara Porto.

O paladar brasileiro se soma à busca identitária

Vitória Kurihara reforça a ideia de que a tradição sempre foi a base do consumo de uísque, mas o que muda hoje é que tudo se tornou uma questão de lifestyle. “Não é mais o álcool pelo álcool. O consumidor está aberto a aprender, já tem noção do que são coquetéis e busca elevar a sua experiência. As pessoas estão atrás de tendências, diferenciais e de fugir da zona de conforto”, afirma. No entanto, Porto faz uma ressalva: o brasileiro ainda não está pronto para abandonar completamente aquilo que conhece, mas está disposto a experimentar o novo se for uma versão sofisticada ou com alguma referência do que já se tem.

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Ambos concordam que há uma clara construção de repertório em andamento. Quanto mais o consumidor entende sobre o que está bebendo, maior a disposição para experimentar novos rótulos.

Criatividade como resposta da indústria

Com um consumidor cada vez mais informado, a indústria precisa surpreender. “O desafio está justamente no como ser criativo com algo que existe há muito tempo”, conta Kurihara. É aí que surgem edições limitadas de colecionador, blends voltados a ocasiões específicas, e processos inovadores — como o uísque envelhecido em barris de tequila. “Eles produzem novidades para fazer com que o consumo não fique chato”, diz.

Além disso, marcas investem mais em rótulos premium e acessíveis. Bares oferecem doses menores e mais baratas, drinques com uísque mais diluído, mas sem perder aromas e sabores. “Existe uma abertura de mercado maior para que os consumidores finais possam ter essa imersão. Há uma vontade clara de o paladar parecer mais maduro, muito por causa do consumo exacerbado da cultura de gastronomia”, conclui Kurihara.

A complexidade gastronômica do uísque

Muitos acreditam que uísque tem “só gosto de álcool”, mas ele pode ser bem mais complexo. Kurihara explica que há uísques com camadas herbais, defumadas, minerais, vínicas, entre outras notas. “As pessoas antes fixavam na ideia de que é uma bebida forte e pronto, mas agora começaram a abrir a mente e pensar em como a bebida se comporta e evolui na boca.” Quanto a harmonizações, Porto sugere combinações clássicas com queijos, chocolate, frutos do mar e até churrasco.

Impacto das canetas emagrecedoras e novas tendências

Mudanças de comportamento também afetam a cultura dos bares. No Caledônia, Porto notou que a frequência dos clientes diminuiu — quem ia toda semana passou a ir a cada quinze dias ou uma vez por mês. “As pessoas dividem porções, estão bebendo um pouco menos e diminuindo a frequência. Isso impacta no faturamento, mas, pensando no custo do tratamento, ainda é um impacto muito pequeno.” Sobre as calorias, Kurihara discorda que se deva escolher a bebida com base nisso, mas reconhece que o álcool pode irritar a mucosa digestiva, especialmente para quem usa canetas emagrecedoras.

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Drinques e rótulos em alta

No Caledônia, os drinques autorais são os mais pedidos, especialmente os mais elaborados e menos alcoólicos. O Penicillin (com uísque escocês, limão, gengibre e mel) segue como o quinto mais vendido. Kurihara lista os coquetéis clássicos que continuam em evidência: Boulevardier, Rob Roy, Manhattan e as clássicas misturas de uísque com sodas artesanais. Em relação aos destilados, ela aponta os blends 12 ou 10 anos como boa porta de entrada, além dos turfados, que despertam curiosidade. Porto destaca a chegada de uísques norte-americanos sofisticados ao Brasil: “O brasileiro não necessariamente está bebendo mais ou menos, mas está bebendo melhor.”

No fim, o futuro do uísque parece estar no significado de cada dose. “Quando o cliente sai de casa, ele busca hospitalidade, um cardápio bem apresentado, sabores e ambiente diferentes, uma boa conversa com o bartender e tipos de frequentadores específicos. Ele quer mostrar que entende o que está bebendo”, conclui Kurihara.