A demanda por carros usados seguiu firme no primeiro semestre, impulsionada pelos altos preços dos veículos novos e pelas condições ainda restritivas de crédito. Mesmo com uma desaceleração nos últimos meses, os preços dos automóveis leves acumularam alta de 3,49% nos primeiros seis meses de 2026, comparado ao desempenho registrado no mesmo período do ano passado, quando subiu 1,98%, de acordo com levantamento do IBV Auto.
Desenvolvido pelo banco BV para acompanhar a evolução dos preços dos automóveis usados no país, o indicador mostra ainda que somente em junho os preços avançaram 0,57%, acima da alta registrada em maio (0,43%). No acumulado de 12 meses, a valorização chega a 6,87%.
Resiliência do setor
Para o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, o comportamento do índice mostra que o setor continua resiliente, embora o ritmo de alta tenha perdido intensidade ao longo do semestre. “O mercado de usados continua em trajetória de valorização, mas em ritmo menos intenso. A desaceleração observada nos últimos meses indica que os preços permanecem pressionados, porém já apresentam sinais de acomodação”, afirma.
A valorização dos seminovos ocorre em um momento em que muitos consumidores ainda encontram dificuldades para acessar veículos zero-quilômetro. Embora o mercado automotivo venha registrando recuperação nas vendas, o aumento dos preços dos automóveis novos, aliado ao custo elevado do financiamento, mantém os usados como alternativa mais acessível para boa parte dos compradores, segundo o IBV.
Alta em todas as regiões
Esse cenário ajuda a explicar por que, mesmo após anos de valorização, os preços continuam avançando acima do observado em igual período de 2025. E o movimento não ficou concentrado em uma única região. Todas as cinco regiões brasileiras registraram aumento dos preços em junho e os 27 estados apresentaram valorização dos automóveis usados.
O Sudeste liderou a alta mensal, com avanço médio de 0,83%, enquanto o Centro-Oeste apresentou a menor variação, de 0,32%. Entre os estados, Minas Gerais foi o principal destaque, com alta de 1,64% apenas em junho, impulsionada principalmente pela valorização de modelos de grande volume de vendas, como o Chevrolet Onix e o Volkswagen Gol, cuja valorização ficou acima da média nacional.
No acumulado de 12 meses, Minas Gerais também lidera o ranking nacional, com valorização de 8,48%, seguido por Rio de Janeiro com 7,20%, Sergipe com 7,08% e Piauí com 7,06%.
Mercado seletivo
Segundo o vice-presidente de Varejo do banco BV, Jamil Ganan, a valorização dos usados passou a depender cada vez mais das características de cada modelo e das dinâmicas regionais. “A valorização continua presente, mas depende cada vez mais do perfil de cada veículo e das preferências dos consumidores. O comportamento do mercado tornou-se menos uniforme e mais seletivo.”
Entre os modelos que mais contribuíram para a alta do índice em junho aparecem o Renault Kwid, o Volkswagen Fox e o Chevrolet Onix. Na direção oposta, Honda HR-V, Volkswagen T-Cross e Hyundai HB20 exerceram pressão de baixa sobre o indicador.
Elétricos perdem valor
Se os veículos usados a combustão continuam valorizados, o mesmo não acontece com os elétricos. O levantamento mostra que os modelos elétricos lançados em 2023 já acumulam desvalorização de 46,1%, percentual muito superior ao observado entre os híbridos (26,1%) e os veículos movidos exclusivamente a combustão (19,6%).
Nos automóveis lançados em 2022, a diferença é ainda maior: os elétricos perderam, em média, 50,5% do valor de mercado, enquanto os híbridos registraram queda de 19,3% e os veículos a combustão recuaram 13,2%.
Segundo o banco BV, esse comportamento reflete uma combinação de fatores, como a redução dos preços dos modelos novos, o aumento da concorrência entre fabricantes e a estratégia agressiva de preços adotada pelas montadoras para ampliar participação no segmento.
Em busca de equilíbrio
Os dados do primeiro semestre sugerem que o mercado brasileiro de usados entra em uma nova fase. Depois das fortes valorizações observadas nos anos posteriores à pandemia, quando a escassez de veículos novos impulsionou os seminovos, os preços continuam subindo, porém em ritmo mais moderado.
Ao mesmo tempo, o desempenho distinto entre veículos a combustão, híbridos e elétricos mostra que a transição tecnológica ainda produz efeitos relevantes sobre o mercado de usados. Enquanto modelos tradicionais seguem sustentando preços elevados, os elétricos continuam passando por um processo mais intenso de ajuste de valor, refletindo um segmento que ainda busca maior maturidade.
Veja os destaques do semestre
- Alta dos preços: +3,49% entre janeiro e junho de 2026; +6,87% em 12 meses
- Modelos que mais valorizaram em junho: Renault Kwid, Volkswagen Fox, Chevrolet Onix
- Estados com maior valorização em 12 meses: Minas Gerais (+8,48%), Rio de Janeiro (+7,20%), Sergipe (+7,08%)
- Desvalorização por tipo de veículo (modelos 2023): Elétricos: -46,1%; Híbridos: -26,1%; Combustão: -19,6%



