Ser bom no que faço pode prejudicar minha carreira?
Ser bom no que faço pode prejudicar a carreira?

Ser excelente no que faz pode, paradoxalmente, se tornar um obstáculo para o avanço na carreira. Especialistas em desenvolvimento profissional alertam que a superespecialização, sem o desenvolvimento de habilidades complementares e visão estratégica, pode prender o profissional em uma posição, impedindo promoções e novas oportunidades.

O perigo da zona de conforto da competência

De acordo com a consultora de carreira Lúcia Alves, da empresa de recrutamento Michael Page, muitos profissionais se tornam tão bons em suas funções que se tornam insubstituíveis na posição atual. “O gestor não quer perder aquele funcionário que resolve todos os problemas técnicos, então acaba não o promovendo. É o chamado ‘excelente executor, péssimo gestor’”, explica.

Uma pesquisa da consultoria McKinsey & Company indica que 70% dos profissionais de alto desempenho técnico não conseguem transição para cargos de liderança nos primeiros cinco anos de carreira. O motivo principal é a falta de desenvolvimento de habilidades de gestão, comunicação e pensamento estratégico.

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Especialização versus visão do todo

O mercado de trabalho atual valoriza profissionais que combinam profundo conhecimento técnico com capacidade de entender o negócio como um todo. “Ser bom no que faz é o mínimo. O diferencial está em como esse conhecimento se conecta com as necessidades da empresa e do mercado”, afirma o headhunter Carlos Mendes, da Korn Ferry.

Ele cita o caso de um engenheiro de software que, por ser excepcional em codificação, passou dez anos no mesmo cargo enquanto colegas menos técnicos, mas com habilidades de liderança, foram promovidos a gerentes e diretores.

Como evitar a armadilha da competência

Para não ter a carreira estagnada, especialistas recomendam que o profissional busque ativamente desenvolver novas competências. Isso inclui cursos de gestão, participação em projetos interdisciplinares e exposição a áreas como finanças, marketing e estratégia.

“O profissional precisa se tornar um ‘T-shaped’ – profundo em sua área, mas com conhecimento amplo em outras”, sugere Lúcia Alves. Além disso, é fundamental comunicar suas ambições de carreira ao gestor e buscar mentoria dentro da empresa.

Outra estratégia é assumir voluntariamente tarefas que vão além da especialidade, como liderar reuniões, coordenar equipes temporárias ou participar de comitês estratégicos. Essas atividades demonstram capacidade de gestão e visão sistêmica.

O papel das empresas no desenvolvimento

As organizações também têm responsabilidade. Programas de rotação de cargos, treinamentos em liderança e avaliações de potencial podem ajudar a identificar talentos que precisam ser desafiados além de sua zona de conforto técnico.

“Muitas empresas perdem bons profissionais porque não oferecem caminhos de crescimento que não sejam exclusivamente técnicos. A carreira em Y – com trilha técnica e gerencial – é uma solução, mas ainda pouco implementada”, observa Carlos Mendes.

Em suma, ser bom no que faz é importante, mas não suficiente. Para crescer, é preciso equilibrar excelência técnica com habilidades interpessoais, visão estratégica e proatividade em buscar novos desafios.

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