O declínio do body positive no Brasil
O movimento body positive, que pregava a aceitação de todos os corpos e ganhou força no Brasil entre 2019 e 2022, enfrenta uma crise. Dados recentes da Vogue Business mostram que nas passarelas da primavera/verão deste ano, 97,1% dos looks eram de tamanho padrão (34 a 40 no Brasil), enquanto apenas 0,9% eram plus size. Especialistas apontam uma mudança cultural, com fortalecimento do conservadorismo e impacto do discurso do presidente americano Donald Trump, que retirou verbas de diversidade nas empresas, afetando também o Brasil.
Influenciadores que emagreceram enfrentam críticas
Figuras que promoveram o movimento e decidiram emagrecer passaram a ser alvo de críticas. A influenciadora Beta Boechat, de 36 anos, foi uma das pioneiras no Brasil. Ela recorreu à cirurgia bariátrica após chegar aos 220 quilos e perder a mobilidade. "Me cobram para seguir uma cartilha que elas próprias criaram para tentar me enquadrar. Eu nunca falei que as pessoas não poderiam emagrecer", disse Beta, que hoje não fala mais sobre o movimento e apresenta um programa na Dia TV. Alexandra Gurgel, de 37 anos, cofundadora do movimento Corpo Livre, também parou de abordar o tema. "Eu me senti culpada por um bom tempo quando eu saí disso. Mas chegou uma hora em que isso não fazia mais sentido pra minha vida", afirma. Ela está em processo de emagrecimento e destaca: "Agora parece que a gente emagreceu e virou um monte de Gisele Bündchen. E a gente, na verdade, só está mais magro."
O papel das canetas emagrecedoras
A disseminação das canetas emagrecedoras trouxe nova complexidade ao debate. Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da USP, defende que esses medicamentos são aliados. "Agora, as pessoas com dificuldades para emagrecer vão ter a possibilidade de chegar a um corpo mais normalizado pela sociedade. Isso se torna uma possibilidade realmente concreta e segura", diz. A endocrinologista Maria Edna de Melo, da Abeso, classifica o body positive como importante, mas defende o direito de emagrecer: "O paciente com obesidade, em geral, enfrenta muito estigma. Esses ativistas têm um papel relevante, mas devem ter suas decisões respeitadas."
O futuro do movimento
Para Dani Rudz, de 50 anos, que continua como referência no body positive mesmo após emagrecer, o movimento não acabou, mas mudou de forma. "O body positive continua, ele sempre existiu e precisa existir, porque nós não somos iguais, somos diferentes e lutamos pelo respeito. E eu sempre vou defender o seu direito de escolha", afirma. Alexandra Gurgel concorda: "O que a gente ensinou e praticou ainda existe. Virou algo sobre autoestima, uma coisa mais liberal." O movimento, agora, enfrenta o desafio de se adaptar a um novo contexto, onde a saúde e a diversidade caminham juntas.



