IA conquista mais confiança que amigos para compras, diz Accenture
IA conquista mais confiança que amigos para compras

Um estudo recente da consultoria Accenture, intitulado 'Talk to my AI agent' e divulgado em 3 de junho, revela que 74% dos entrevistados em 16 países aceitam que um agente de inteligência artificial (IA) realize tarefas cotidianas em seu lugar. No Brasil, esse índice sobe para 82%. Mais impressionante ainda: os mesmos 74% globais (85% no Brasil) afirmam confiar mais no agente de IA do que no melhor amigo para fazer uma compra em seu nome.

Da consulta à confiança: a nova relação com a IA

Esses números indicam uma mudança profunda na relação entre humanos e máquinas. Antes, limitávamo-nos a consultar sistemas computacionais; agora, depositamos nelas uma confiança que supera os laços humanos. Enquanto um amigo pode conhecer nossos gostos, mas falhar em detalhes ou demorar a responder, a IA lembra preferências, adapta a linguagem ao interlocutor, responde instantaneamente, nunca demonstra impaciência e aparenta não ter interesses próprios.

Essa aparente neutralidade é um dos principais motores da confiança. No entanto, por trás das recomendações, existem modelos de negócios e incentivos comerciais que desconhecemos. A pesquisadora romena Adriana Placani, em seus estudos sobre antropomorfização, explica que os seres humanos tendem a atribuir personalidade, emoções e intenções a objetos quando eles apresentam características sociais. Nosso cérebro deixa de enxergar uma máquina e passa a perceber alguém com quem vale a pena conversar e confiar.

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Hipersuasão personalizada

Esse fenômeno é potencializado pelo que o filósofo belga Mark Coeckelbergh chama de 'hipersuasão'. Enquanto a publicidade tradicional tenta convencer milhões de pessoas com uma única mensagem, a IA aprende continuamente quem somos, adapta argumentos, escolhe o melhor momento para falar, modifica o tom da conversa e descobre, pouco a pouco, quais estratégias funcionam melhor para convencer cada indivíduo.

A confiança cresce ainda mais quando a IA ganha um corpo. Um robô que olha para nós, demonstra 'emoções', nos chama pelo nome, lembra preferências e conversa diariamente deixa de ser apenas um equipamento eletrônico para se tornar um 'companheiro'. Essa transformação motivou a recente nota técnica da Secretaria Nacional de Direitos Digitais sobre os chamados 'smart toys', dispositivos com IA dedicados a crianças. Especialistas veem esses produtos com ressalvas, principalmente por questões de privacidade e manipulação.

Black Mirror e os riscos da companhia artificial

Um cenário extremo dessa relação é retratado no episódio 'Rachel, Jack and Ashley Too', da série 'Black Mirror'. Nele, uma boneca com IA torna-se a principal confidente de uma jovem, mostrando como uma máquina pode ocupar um espaço emocional normalmente reservado a pessoas. A cena em que o 'smart toy' ganha protagonismo ilustra os riscos de substituir relações humanas por interações artificiais.

No entanto, isso não significa que robôs sociais sejam necessariamente uma ameaça. A mesma tecnologia pode transformar positivamente a educação, auxiliar crianças, reduzir a solidão de idosos, apoiar tratamentos de saúde e tornar o aprendizado mais envolvente. O problema nunca esteve na IA, mas na falta de transparência sobre quem define seus objetivos e quais interesses orientam suas interações.

Vigilância empática: o novo desafio

Sempre convivemos com tecnologias capazes de coletar informações. A novidade é que estamos aprendendo a gostar dessa vigilância por vir acompanhada de empatia e de uma conversa agradável. Baixamos nossas defesas porque deixamos de enxergar um sistema e passamos a perceber uma companhia. Não podemos esquecer que, por trás de uma voz acolhedora digital, existem interesses econômicos. Chegamos a um ponto em que tratar máquinas como seres vivos pode trazer riscos significativos. E, nesse sentido, nosso melhor amigo acaba sendo muito mais confiável do que a IA, mesmo com suas imperfeições.

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