Disputar a terceira etapa do Troféu Rally Clássico São Paulo de Golf GTI parecia uma ótima ideia na teoria. Hatches esportivos existem para isso mesmo: servir na labuta diária e divertir no fim de semana – seja em um track day, uma estrada vicinal sinuosa ou um rali de regularidade.
Rali de regularidade, todos sabem, é o tipo de prova automobilística que se encaixa na categoria Raid, de Regularidade Absoluta em Itinerário Desconhecido. Logo, o objetivo não é ser rápido, mas manter as médias horárias pré-estabelecidas pela direção da prova.
O desafio das médias horárias
Isso quer dizer que em determinado trecho da prova, por exemplo, é preciso seguir a 63 km/h por 4,7 quilômetros para então, de repente, reduzir aos 48 km/h e mantê-los por mais 5,7 km. Depois de contornar a rotatória e pegar a terceira saída, velocímetro cravado nos 37 km/h até a placa “Bem-vindo a São Roque”; a partir daí, 55 km/h até o segundo posto à esquerda. Vence um rali de regularidade quem obtiver as menores margens de erro ao passar pelos pontos de controle.
Golf GTI é inimigo das velocidades baixas
Dependendo do percurso – a última etapa, no sábado (27), teve quase 200 km –, passa-se uma grande parte do dia rodando. Fora o tempo que se aguarda para a largada, que ocorre com um minuto de intervalo entre cada competidor.
Foi momento ideal para me ajeitar ao volante do principal esportivo da Volkswagen e apreciar os privilégios de sua cabine, como o sistema de som Harman Kardon de 480W e o charmoso banco com revestimento xadrez, que ampara firmemente costas, lombar e pernas (ainda que para essas lhe falte extensor de assento, mimo que já deveria vir de série no principal esportivo da marca).
Enquanto o navegador analisava o percurso indicado pelas tulipas – os símbolos na planilha de navegação que mostram o caminho –, pude configurar o painel de instrumentos de 10,2 polegadas ou parear o celular com a central multimídia de 12,9 polegadas.
A arte de perder a prova a bordo de um carrão
Terceiro carro a largar, desistimos depois de aproximadamente 30 segundos de prova. E a culpa é toda do Golf GTI – mais especificamente do 2.0 turbo de 245 cv de potência e 37,7 kfgm de torque, acoplado a um câmbio DSG (automatizado de dupla embreagem) de sete marchas.
Que até saberia se comportar a 52 km/h por 3,5 km antes da próxima tulipa indicar curva levemente acentuada à esquerda feita a 39 km/h. Ocorre que, dirigindo um Golf GTI, qualquer um em plena lucidez aproveitaria as estradas sinuosas daquela prova para... dirigir apropriadamente um Golf GTI.
E dirigir apropriadamente um Golf GTI significa simplesmente acelerar, testar os limites do carro nas curvas, saborear a sensibilidade da direção – o oposto do que um rali de regularidade exige. Ao dispensarmos a planilha de navegação e ignorarmos os pontos de controles, garantimos nosso lugar na última posição.
No entanto, o envolvimento com um dos poucos carros no mercado nacional que combina conforto, esportividade e legado – algo cada vez mais raro diante da ascensão dos chineses – valeu cada ponto perdido.
Hatch retorna ao País após seis anos
O Golf GTI retornou ao Brasil após ficar fora de linha por seis anos e vem importado da Alemanha na versão icônica GTI.
Golf GTI já é cinquentão
Quando a 46ª edição do Salão de Frankfurt abriu seus portões, em 11 de setembro de 1975, o Golf GTI foi revelado como “o Volkswagen mais rápido de todos os tempos”. Ao desembarcar nas concessionárias alemãs, no início do ano seguinte, vendeu dez vezes mais do que o volume planejado para o primeiro ano.
Com 110 cv, faixas laterais, forração xadrez nos bancos e punho da alavanca de câmbio no formato de bola de golfe, talvez seja um companheiro mais comportado para a próxima etapa do rali – dessa vez até o fim.



