O roubo de cargas no Brasil passou por uma transformação significativa nos últimos anos. Se antes os criminosos miravam eletrônicos, combustíveis e alimentos, agora o alvo principal são medicamentos de alto valor agregado. Dados da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) indicam que os roubos de cargas farmacêuticas cresceram 30% em 2025, saltando de 2.500 ocorrências em 2024 para 3.250 no ano passado.
Mudança de perfil do crime organizado
De acordo com especialistas em segurança, as facções criminosas perceberam que medicamentos são mais lucrativos e têm menor risco de rastreamento do que outros tipos de carga. Remédios para câncer, diabetes e doenças raras podem valer dezenas de milhares de reais por caixa. “Os medicamentos são tão valiosos quanto ouro. Eles são fáceis de revender no mercado negro e dificilmente são identificados pela polícia”, afirma José Antunes, pesquisador em logística da Universidade de São Paulo (USP).
Além disso, a demanda por determinados fármacos é constante, garantindo escoamento rápido dos produtos roubados. Hospitais e clínicas clandestinas são os principais compradores, segundo investigações da Polícia Civil.
Impacto no setor de saúde e seguros
A mudança no perfil do roubo de cargas afeta diretamente os preços dos medicamentos e os custos de seguros. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) estima que os prêmios de seguros para cargas farmacêuticas subiram 18% em 2025. Para as transportadoras, a adoção de tecnologias como rastreamento por GPS e inteligência artificial tornou-se urgente.
“O setor precisa investir em escolta armada e dispositivos antifurto, mas isso encarece o frete. No final, o consumidor paga a conta”, explica Antunes. Uma pesquisa da FGV Transportes aponta que 45% das empresas do setor já utilizam inteligência artificial na roteirização e monitoramento, mas apenas 15% contam com sistemas específicos contra roubo de medicamentos.
Medidas de combate e desafios
O governo federal anunciou em fevereiro um plano integrado com as polícias rodoviárias e a Polícia Federal para aumentar a fiscalização em pontos críticos. As rodovias Presidente Dutra, Fernão Dias e Régis Bittencourt lideram o ranking de ocorrências. No entanto, especialistas criticam a falta de inteligência policial. “As ações são reativas. Precisamos de uma coordenação nacional com compartilhamento de dados em tempo real”, ressalta o delegado Marcos Ribeiro, da Divisão de Roubo de Cargas de São Paulo.
Enquanto isso, as empresas buscam soluções criativas. Uma fabricante de medicamentos de Minas Gerais passou a usar contêineres com sensores que enviam alertas se a carga for desviada. Outra aposta em chips minúsculos inseridos nas embalagens, que permitem rastreamento mesmo após abertura dos lotes.
Perspectivas para 2026
Com o avanço do crime organizado, a tendência é que os roubos de medicamentos continuem crescendo. A NTC&Logística projeta alta de 20% em 2026 se não houver investimento massivo em segurança. O setor de saúde espera que o governo inclua os fármacos na lista de cargas de alto risco, o que obrigaria escolta armada obrigatória. Por enquanto, a insegurança logística segue sendo um dos maiores desafios para o mercado farmacêutico no Brasil.



