O Fluminense se prepara para um dos jogos mais importantes da temporada. Neste sábado, a equipe enfrenta o Vasco, no Maracanã, pelo jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil. O clássico chega em um momento de oscilação para os tricolores, que vêm de três empates consecutivos desde a pausa para a Copa do Mundo e sofreram vaias e xingamentos ao técnico Luis Zubeldía no empate em 0 a 0 com o Bahia, na última quarta-feira (29). A pressão, porém, não tira a confiança do treinador argentino, que enxerga no confronto uma oportunidade de mudar o rumo da equipe na temporada.
Pressão e objetivos traçados
Com 20 anos de carreira, Zubeldía afirmou que a maturidade o ajuda a lidar com a insatisfação da torcida. Em entrevista ao Globo Esporte, o treinador fez um balanço do trabalho à frente do Fluminense e destacou que os resultados são passageiros, mas os objetivos do clube permanecem claros. "O que aprendi é focar nos objetivos do clube. Nós chegamos há quase um ano e traçamos objetivos. Perguntei: 'qual o objetivo?' Tinha a semifinal da Copa do Brasil. Outro importante era classificar na Libertadores e conseguimos de maneira contundente. Esse ano o mesmo. No Carioca, queríamos ir à final. Se define por pênaltis. Aí é o futebol, se a bola bate na trave e entra está tudo ótimo. Estar na final é um bom passo. Temos claro que na Copa do Brasil queremos chegar à final e o mesmo na Libertadores. Sobre o Brasileirão, queremos estar sempre nos primeiros lugares. Essa é a parte mais difícil do calendário, o meio, e estamos em três frentes. Isso vai se desenvolver e se tudo der certo vamos seguir nas duas Copas. E vai custar mais no Brasileirão. A priori, esses são os objetivos. Queremos alcançar eles e se não conseguirmos, sabemos as consequências. Esse é meu foco, não a crítica momentânea. Ela é passional. Respeito e sigo focado nos objetivos", disse.
Há cerca de dez meses no cargo, Zubeldía já experimentou diferentes fases. A sequência de vitórias como mandante, que garantiu a vaga direta na Libertadores, rendeu a brincadeira "Zubeldía e alegria". Em contrapartida, a eliminação na semifinal da Copa do Brasil, o vice no Carioca e a campanha complicada na fase de grupos da Libertadores geraram desconfiança por parte da torcida. O técnico, porém, mantém o bom humor e define o momento como uma "montanha-russa".
Montanha-russa e calendário
"O balanço é bom, mas com questões a melhorar. Adrenalina pura. É uma montanha russa", completou Zubeldía, que também analisou as particularidades do calendário brasileiro. "O que acontece [no Brasil] tem uma explicação lógica. O calendário normal do futebol brasileiro faz com que você duplique ou triplique a quantidade de jogos do anual de outra liga. Tendo tantas partidas, há mais coisas em jogo. Sou capaz de ganhar quatro seguidas em duas semanas ou perder. Perder quatro seguidas, mesmo tendo ganhado quatro, gera um ruído muito grande. Há muito em jogo em pouco tempo. Saem treinadores a cada três meses e meio por isso, pela quantidade de partidas", analisou.
Clássico com tempero especial
O confronto com o Vasco já tem histórico recente em mata-matas. Pela Copa do Brasil do ano passado, o Fluminense foi eliminado nos pênaltis pelo rival na semifinal. Já no Carioca deste ano, os tricolores levaram a melhor com placar agregado de 2 a 1. A rivalidade, segundo Zubeldía, dá um toque único à partida. Um dos maiores clássicos do Rio de Janeiro, o duelo muitas vezes transcende o campo, com episódios históricos de disputa até pela escolha do lado do Maracanã. "Sem dúvida que esse tipo de enfrentamento em um mata-mata tem um tempero especial. A paixão é o que você vai agregando de pessoas do clube. Vão te contagiando com a história desse tipo de partida", afirmou.
Desfalques na zaga e identidade
Para o clássico, Zubeldía terá problemas para escalar a defesa. São três desfalques no setor: Thiago Silva, Millán e Freytes, todos lesionados. Jemmes retorna de lesão justamente para este jogo, mas a equipe fica no limite de opções. O técnico reconheceu a preocupação e explicou que isso é consequência da disputa em várias frentes. "Se você faz o dever bem em um ano, no seguinte vai ter quatro competições e talvez uma quinta se ganhar a Libertadores. É próprio de alguém que está competindo, que não caiu cedo na Copa do Brasil ou na Libertadores. Quando se avança, se encontra com esses problemas. Jogar várias competições não é tudo lindo. Porque não pode repetir a equipe, perde a identidade. Temos um elenco bom para fazer um bom Brasileirão se seguirmos nas copas. Mas com dificuldade para ter uma identidade consolidada. Porque vai haver altos e baixos no rendimento. Me preocupam as lesões dos zagueiros, mas sabia que poderia acontecer", ponderou.
Volta de John Kennedy e "quadrado mágico"
No setor ofensivo, Zubeldía ganha um importante reforço. John Kennedy, artilheiro e destaque da temporada, cumpriu suspensão nas últimas duas partidas e está de volta. Com isso, o treinador terá todas as peças ofensivas à disposição, incluindo Hulk, que foi titular nos três jogos do Brasileirão após a pausa, marcou um gol de pênalti contra o Grêmio, mas também ouviu vaias no empate com o Bahia.
A grande dúvida é se Hulk, John Kennedy, Lucho Acosta e Savarino podem atuar juntos. Zubeldía não descarta a formação. "Pode ser. O que acontece é que quando começa o Campeonato vamos com a lógica e depois não pudemos ter todos os jogadores à disposição e tão pouco tempo de experimento. Inclusive na pré-temporada. Porque não estavam todos, alguns estavam em níveis diferentes. É possível. Para isso, precisa de laterais agudos, para fazer um quadrado no meio, e ter boa circulação de bola. Para não ficar dividido e distante quando perder a bola. Não é um time para contra-ataque. Tem que ir desenvolvendo a jogada para ter esse quadrado. Tem que ter uma circulação de bola muito boa. Para isso, precisa vivenciar em várias partidas, porque de primeira não vai sair. Quando coloca no papel, é lindo. Te pergunto: que equipe no mundo joga assim? Nenhuma. Mas sou generoso, democrático e aberto. Por isso, sim digo que pode. Contra o Bragantino fizemos algo parecido. Antes da expulsão com Lucho, Hulk aberto, John e Cano", projetou.
A partida deste sábado é apenas o primeiro capítulo de uma série que pode definir o futuro do clube na temporada. Com um elenco desfalcado e a torcida cobrando, Zubeldía aposta na experiência e no equilíbrio emocional para conduzir o time em mais um teste de fogo. O resultado, mais do que a classificação, pode trazer a confiança necessária para a sequência nas três competições em que o Flu segue vivo.



