A UEFA anunciou nesta sexta-feira que não confia mais no presidente da FIFA, em uma declaração que endurece a disputa institucional entre as duas entidades que gerenciam o futebol mundial. A decisão foi comunicada às federações filiadas e vem acompanhada de alertas sobre os rumos da governança esportiva global.
Ruptura após divergências sobre calendário e expansão do Mundial
De acordo com a nota oficial da entidade europeia, a perda de confiança é resultado de decisões que vêm sendo tomadas pela cúpula da FIFA sem consulta aos membros. A UEFA afirmou que "não pode mais endossar uma agenda que desrespeita o calendário doméstico das ligas nacionais". O comunicado menciona explicitamente a tentativa de imposição de um novo formato para o Mundial de Clubes, que aumentaria a carga de jogos dos atletas.
"Perdemos a confiança no presidente da FIFA", afirma um trecho do documento obtido pela reportagem. A UEFA também questiona a condução do processo de expansão da Copa do Mundo, que passará a ter 48 seleções a partir de 2026, e indica que a decisão foi tomada de forma atropelada, sem estudos técnicos suficientes.
Impacto na Copa de 2026 e nas eliminatórias
A crise atinge um momento simbólico: a Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, no Canadá e no México, será a primeira com 48 equipes. A UEFA, que historicamente domina o torneio, já havia demonstrado contrariedade com o novo formato, argumentando que a expansão dilui a qualidade dos jogos e aumenta o desgaste físico dos atletas.
O calendário de eliminatórias para o Europeu de 2028 já está em curso, mas a falta de alinhamento com a FIFA sobre datas internacionais pode gerar conflitos futuros. As 55 federações europeias são historicamente as mais ricas e organizadas do mundo, e qualquer movimento em bloco tem potencial para desestabilizar as competições globais.
Resposta da FIFA e reações no cenário esportivo
Até o momento, a FIFA não se manifestou oficialmente sobre as declarações da UEFA. Porém, segundo a reportagem, fontes ligadas à entidade máxima do futebol teriam recebido com surpresa a nota europeia, alegando que todas as decisões foram tomadas com transparência e aprovação em congressos.
A ruptura preocupa patrocinadores e emissoras de TV que investem bilhões de dólares nos direitos de transmissão. O futebol europeu responde pela maior parte da receita global do esporte, e uma divergência prolongada poderia afetar as negociações de contratos para o ciclo de 2027 a 2030.
Próximos passos da entidade europeia
A UEFA informou que convocará uma reunião extraordinária do seu Comitê Executivo para discutir as consequências dessa falta de confiança. Entre as medidas que podem ser adotadas, estão o congelamento de projetos conjuntos com a FIFA e a revisão da participação das seleções europeias em competições organizadas pela entidade que não sejam a Copa do Mundo.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que uma cisão definitiva seria catastrófica para o futebol mundial, mas que a pressão europeia pode ser uma estratégia para forçar reformas na estrutura de poder da FIFA, incluindo a limitação de mandatos e maior transparência orçamentária.
Histórico de conflitos entre as entidades
As relações entre UEFA e FIFA nunca foram totalmente harmoniosas. Em 2021, a proposta de um Mundial bienal, apresentada pela FIFA com apoio de países africanos e asiáticos, foi rechaçada pela UEFA, que ameaçou não participar. O projeto foi arquivado, mas deixou feridas. Mais recentemente, o aumento do número de jogos do Mundial de Clubes para 32 equipes, com início previsto para 2025, e a criação de uma Superliga de clubes promovida por alguns times europeus, que a FIFA tentou coibir, também alimentaram a desconfiança.
Porta-vozes da UEFA afirmaram que a entidade continua disposta a dialogar, mas condicionam qualquer reaproximação a mudanças de postura. A nota europeia ressalta que o respeito mútuo é inegociável e que a FIFA precisa ouvir todas as partes interessadas antes de implementar mudanças estruturais.
Impacto econômico e reação de ligas nacionais
Ligas como a Premier League, LaLiga, Serie A e Bundesliga acompanham a movimentação da UEFA com atenção. As cinco principais ligas europeias geram, juntas, mais de 15 bilhões de euros em receita anual, um montante que supera o PIB de vários países. Qualquer instabilidade na relação com a FIFA afeta diretamente o valor dos direitos de transmissão, patrocínios e acordos comerciais.
A European Leagues, associação que reúne as ligas profissionais do continente, emitiu nota de apoio à UEFA, pedindo mais diálogo e um modelo de governança que inclua todos os envolvidos no esporte. A crise atual será tema de debate também na próxima reunião do Conselho da FIFA, marcada para setembro. Se a UEFA confirmar o boicote, o esporte assistirá a uma divisão sem precedentes desde a criação das duas organizações.



