ARLINGTON – Dos 26 jogadores que disputam a Copa do Mundo com a Espanha, 13 estiveram no pódio do futebol nas duas últimas edições dos Jogos Olímpicos. Há, ainda, remanescentes dos títulos europeus Sub-19, em 2015, e Sub-21, em 2019, ambos sob comando de Luis de la Fuente.
Formação de base como alicerce
O técnico, que chegou à seleção principal tendo como principais trabalhos os times de base, é colega de longa data de jogadores que compõem o elenco atual. Além dos títulos continentais, ele levou a Espanha à prata olímpica em Tóquio-2020, perdendo para o Brasil de André Jardine na final.
“Quando a gente se classificou para a final e passou a olhar para a Espanha, nos demos conta do nível de seleção que eles levaram para os Jogos Olímpicos. Era um misto de seleção principal, com os melhores jovens que eles tinham na época”, relembrou André Jardine, em entrevista ao Estadão.
Jogadores com experiência em base
Dos jogadores que entraram em campo na final olímpica, o goleiro Unai Simón, o lateral Marc Cucurella, os meias Mikel Merino, Dani Olmo e Pedri e o atacante Mikel Oyarzabal têm sido regulares nesta Copa do Mundo. A lista poderia ser maior: Rodri, por exemplo, havia sido convocado, mas não teve liberação do Manchester City para participar do torneio, com receio de que os jogos prejudicassem o atleta fisicamente.
“A Espanha tem esse DNA de ter a bola muito forte em qualquer categoria que se jogue”, disse Jardine. “Quem fizer o trabalho de olhar para trás vai valorizar ainda mais a conquista do ouro. A gente sabe a dificuldade e o valor que tem, mas talvez nem todo brasileiro tenha essa noção do que a gente conseguiu conquistar naquele momento”, completou.
Sucesso na base e transição para o profissional
Luis de la Fuente deixou a base para comandar o time profissional em 2023, depois de a Espanha não ter conseguido repetir o sucesso dos jovens nos Mundiais. Nas últimas três Copas do Mundo, as eliminações haviam sido na fase de grupos e nas oitavas de final (duas vezes).
O elenco atual conta com medalhistas de ouro em Paris-2024 (Joan García, Marc Pubill, Eric García, Pau Cubarsí, Álex Baena) e de prata em Tóquio-2020 (Unai Simón, Marc Cucurella, Martín Zubimendi, Mikel Merino, Mikel Oyarzabal, Eric García, Pedri, Dani Olmo). Além disso, vários foram campeões europeus Sub-21 em 2019 (Unai Simón, Fabián Ruiz, Mikel Merino, Dani Olmo, Mikel Oyarzabal) e Sub-19 em 2015 (Unai Simón, Mikel Merino, Rodri).
Formação nos clubes espanhóis
Para o head de projetos de futebol de La Liga, Juan Florit, os princípios que se tornaram marca registrada do futebol espanhol estão refletidos no estilo de jogo da seleção. “Cada academia preserva sua própria metodologia e identidade futebolística, ao mesmo tempo em que faz parte de um ecossistema mais amplo que valoriza a excelência técnica, a inteligência tática, a tomada de decisões e o desenvolvimento de longo prazo dos atletas”, responde ao Estadão.
Desde 2022, a liga tem um plano nacional para as academias de base dos clubes. “A iniciativa elevou a um novo patamar o trabalho colaborativo que já vinha sendo desenvolvido desde 2015 por meio dos encontros anuais das academias de La Liga”, conta Florit. “Embora vários clubes já contassem com estruturas de formação de nível mundial, o objetivo era garantir que todos os 42 clubes profissionais alcançassem os mais altos padrões de desenvolvimento de jovens atletas, promovendo uma maior profissionalização em toda a liga”, completa.
Equipes B e competitividade
Clubes espanhóis contam com equipes B, que disputam terceiras e quartas divisões, como ponte entre a base e o profissional. “As equipes B não são uma exigência. Elas fazem parte da estrutura tradicional do futebol espanhol e representam uma oportunidade que os clubes podem escolher utilizar como ponte entre as categorias de base e a equipe principal”, diz Florit.
A segunda divisão espanhola de 2026/27 terá dois times B de grandes escolas de formação: o Celta Fortuna, que subiu na última temporada, e a Real Sociedad B. Foi na equipe secundária da Real Sociedad que Mikel Oyarzabal, artilheiro da Espanha na Copa, estreou profissionalmente. Aos 29 anos, o atacante atuou apenas pela Real Sociedad na carreira.
Experiência precoce e proteção infantil
A Espanha mantém competições estruturadas de categorias de base com crianças a partir dos 6 ou 7 anos. “Aos 18 anos, um jogador na Espanha normalmente já disputou cerca de 500 partidas competitivas, adquirindo uma experiência excepcional antes de chegar ao futebol profissional”, exemplifica Florit. “Ao mesmo tempo, é fundamental lembrar que os jogadores das categorias de base são, antes de tudo, crianças e adolescentes, e só depois atletas”, ressalva.
A Associação Espanhola de Normalização e Certificação (Aenor) opera auditorias nas categorias de base dos clubes, avaliando padrões esportivos, proteção infantil, políticas de salvaguarda, apoio psicológico, programas de dupla carreira, medidas contra bullying e bem-estar geral dos jovens atletas.
Potencial para o futuro
Luis de la Fuente, desde que chegou ao profissional, promoveu a integração de jovens talentos e teve resultado: a Espanha foi campeã da Eurocopa de 2024 e finalista da Liga das Nações da Uefa 2024/25. A média de idade do elenco espanhol é de 26,4 anos, indicando que a maioria dos atletas ainda pode atuar por pelo menos mais duas Copas do Mundo.
“Digo que me sinto nostálgico pelo tempo em que fui técnico da base. Eu insisto: sou privilegiado por ter desenvolvido minha carreira com eles como colegas. Sempre falamos em fechar o ciclo. Não queremos fechar nesta Copa do Mundo. Queremos mais. Mas seria uma cereja no bolo levar a Copa”, disse o treinador antes da semifinal contra a França.
A chance de “conquistar a cereja” será contra a Argentina, no domingo, dia 19, às 16h (de Brasília), no MetLife Stadium, em East Rutherford.



