Uefa perde confiança em Infantino após recuo de investimento da Fifa
Uefa perde confiança em Infantino após recuo da Fifa

Em comunicado divulgado neste sábado (1º), a Uefa afirmou ter perdido a confiança na liderança de Gianni Infantino na Fifa. A declaração é uma resposta direta à crise gerada pela desistência de um plano de investimentos privados na entidade, revelado na terça-feira (28) e abandonado após forte oposição de confederações.

A confederação europeia acusou o presidente da Fifa de não cumprir as promessas de transparência feitas quando assumiu o cargo, em 2016. “O atual comando perdeu não apenas a confiança da Uefa, mas também de muitos outros membros”, afirma o texto, que ainda classifica o projeto como “obscuro, feito de porta fechada”.

A manifestação aumenta a pressão sobre Infantino, que em março de 2025 buscará a reeleição para um quarto mandato à frente da entidade máxima do futebol. A declaração da Uefa foi divulgada no mesmo dia em que a Fifa oficializou a retirada da proposta, evidenciando que o recuo não foi suficiente para superar o mal-estar.

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O que estava em jogo no plano da Fifa

A proposta previa a criação de uma subsidiária denominada Fifa Forward Enterprise, com a missão de gerir as Copas do Mundo masculina e feminina. O modelo permitiria que investidores privados comprassem participações minoritárias nos torneios, recebendo em troca uma parcela das receitas geradas por direitos comerciais e transmissão.

O banco norte-americano JP Morgan estruturou o negócio. A Thrive Eternal, empresa associada a Joshua Kushner, cunhado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lideraria o grupo de investidores. A presença de Kushner no projeto levantou questionamentos sobre a influência política na Fifa.

O plano também incluía a expansão dos torneios para aumentar a arrecadação. A meta era gerar pagamentos de 24 milhões de euros por associação nacional no ciclo 2035-2039, um montante que seria distribuído entre as federações filiadas. Para a Uefa, no entanto, o custo em termos de governança seria alto demais.

A Fifa Forward Enterprise teria autonomia para negociar contratos comerciais, de transmissão e de patrocínio. Isso significaria, na prática, que decisões estratégicas sobre as Copas deixariam de ser tomadas exclusivamente pelos órgãos internos da entidade, o que gerou alarme entre as confederações.

Reação imediata e boicote

A proposta foi recebida com desconfiança desde o início. Na quinta-feira (30), a Uefa realizou uma votação e decidiu apoiar um boicote às Copas do Mundo caso o plano fosse mantido. A Concacaf, que representa América do Norte, Central e Caribe, e a AFC, confederação asiática, também se opuseram.

A união das confederações regionais tornou o projeto inviável. Sem o apoio dessas entidades, a Fifa não conseguiria organizar seus principais torneios, o que representaria um prejuízo imenso. A pressão cresceu nos bastidores até que Infantino recuou.

Recuo e cobranças da Uefa

No sábado, Infantino desistiu da proposta. A decisão evitou uma crise institucional ainda maior, mas não foi suficiente para aplacar as críticas. A Uefa, em seu comunicado, exigiu a responsabilização dos envolvidos na elaboração do plano e prometeu criar mecanismos para impedir que novas iniciativas do tipo sejam tomadas sem ampla consulta.

A entidade europeia também defendeu a utilização do dinheiro “ocioso” da Fifa para financiar o futebol de base. “Não precisamos vender as joias da família para pagar por isso. Esta é uma vitória para o jogo, mas reconstruir a confiança na Fifa apenas começou”, diz o texto.

O tom do comunicado da Uefa indica que a relação com a Fifa está no nível mais baixo dos últimos anos. A entidade europeia, que é a maior e mais influente entre as confederações, deve continuar pressionando por mudanças na governança da entidade máxima do futebol.

Pressão política e futuro de Infantino

O episódio ocorre a dois meses do Congresso da Fifa, que acontece em março, quando Infantino tentará ser confirmado para um quarto mandato. A repercussão negativa do plano pode fortalecer críticas de que a entidade se afastou dos princípios de transparência que defendia publicamente.

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Carlos Cordeiro, consultor sênior da Fifa, renunciou ao cargo após o anúncio do plano, classificando-o como “mau negócio que hipotecaria o futuro do esporte”. A Federação Inglesa de Futebol, por sua vez, pediu uma “revisão robusta da liderança e governança da Fifa”.

As reações mostram um cenário de desgaste para Infantino. Mesmo com a desistência da proposta, o presidente da Fifa precisará reconstruir pontes com as confederações que se sentiram excluídas das decisões. A promessa de uma gestão mais aberta, feita em 2016, agora é cobrada na prática.

O recuo também levanta dúvidas sobre como a Fifa pretende financiar seus projetos no futuro. A entidade tem reservas financeiras, mas a busca por capital externo demonstra a preocupação com o aumento das despesas e a necessidade de ampliar receitas. Para a Uefa, a solução passa pelo uso eficiente dos recursos já existentes.