O presidente da FIFA, Gianni Infantino, está no centro de uma nova turbulência após a revelação de um plano para criar uma subsidiária chamada FIFA Forward Enterprises (FFE). A empresa concentraria todos os direitos comerciais das principais competições da entidade, incluindo a Copa do Mundo de Seleções e a Copa do Mundo de Clubes. O projeto, divulgado pelo jornal The Times em reportagem de Martyn Ziegler, previa a venda de 20% das ações da FFE para investidores privados, em uma operação estimada em 4,2 bilhões de dólares.
O nome escolhido remete diretamente ao programa Forward, que repassa cerca de 3 milhões de dólares anuais a cada uma das 211 federações filiadas. Ao associar a nova empresa a essa iniciativa de desenvolvimento, a FIFA buscava conectar o propósito de uma à outra. Nos discursos de Infantino, a FFE aparecia como uma forma de “destravar o potencial comercial” da entidade e “garantir o desenvolvimento do futebol em todos os cantos do planeta”.
Um plano bilionário envolto em sigilo
Apesar do discurso institucional, o projeto estava em estágio avançado de negociação sem ter sido formalmente anunciado. Segundo o The Times, a FIFA já contava com consultoria do banco JP Morgan, captação de investidores pela Thrive Eternal e uma lista de potenciais sócios que incluía o fundo Apollo Global Management, todos com alto poder financeiro e político. O vazamento pegou confederações e federações de surpresa, gerando mal-estar imediato.
Como membros associados, as 211 associações nacionais seriam convocadas a deliberar sobre a criação da FFE por maioria simples. A articulação, se conduzida de forma transparente, poderia não encontrar tanta resistência. Em julho, a imprensa europeia já havia noticiado que cerca de 200 federações, entre elas 50 das 55 filiadas à UEFA, declararam apoio à reeleição de Infantino para um quarto mandato.
Ultimato e ameaça de cortes
Diante da repercussão, Infantino tinha três caminhos: negar o projeto, reconhecer a existência de conversas iniciais ou dobrar a aposta. Ele escolheu a terceira via. Aproveitou o barulho para reafirmar a ideia, divulgar detalhes e fixar um prazo de decisão para 19 de setembro. Mais do que isso, condicionou os repasses planejados à aprovação das federações, afirmando que aquelas que não apoiassem o projeto sofreriam reduções drásticas nos valores originalmente previstos.
A atitude foi interpretada como uma ameaça e acelerou o movimento de rejeição. A UEFA foi a mais radical: na quinta-feira, 30 de agosto, anunciou por unanimidade que seus membros boicotariam a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, marcada para o Brasil, caso o projeto da FFE não fosse descontinuado. No mesmo dia, a Concacaf também deliberou em assembleia um rechaço contundente, mas sem propor medidas drásticas.
Reação em cadeia e apoios incertos
Juntas, UEFA e Concacaf somam 96 associações, cerca de 43% dos 211 membros da FIFA. Elas se uniram à AFC, federação asiática, que já havia manifestado “desapontamento” com a falta de consulta. Outras entidades também declararam desaprovação, como a European Football Clubs, a World Leagues Associations e a FIFPro, sindicato internacional de jogadores.
Ainda assim, poucas federações se posicionaram formalmente contra a FFE em termos absolutos. Muitas notas públicas adotaram tom mais conciliatório, “querendo fazer parte” da discussão do que rejeitando o projeto de maneira frontal. Para analistas, isso indica que, entre os apoiadores que agora se dizem contrariados, há muitos dispostos a uma conversa de convencimento, especialmente com dinheiro em jogo.
O sol derreteu a cera
A crise ameaça a hegemonia de Infantino, construída com base em expansão de vagas em Copas, repasses diretos, contribuições para eleições de sedes e nomeações para postos-chave. O episódio da FFE, no entanto, expôs um esquema que muitos consideram o mais explícito exemplo de compra de votos já visto na entidade. Segundo reportagem da Sky Sports, “cresce no futebol mundial a convicção que o Sr. Infantino não conseguirá sobreviver a esta mais recente controvérsia”.
O jornal Telegraph noticiou que líderes europeus tentam convencer o catari Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain, a disputar as eleições para a presidência da FIFA em março de 2027. Al-Khelaifi teria indicado que não pretende concorrer, mas acompanha o assunto com atenção. Ele preside a Bein Media e o Qatar Sports Investments, além de comandar a European Football Clubs, uma das entidades que se opuseram à FFE.
Ingerência privada e precedente perigoso
O projeto da FFE representa, na prática, a abertura oficial da FIFA para a ingerência de investidores privados. Mesmo que a entidade mantenha pelo menos 80% das ações, novos sócios estariam em posição de influenciar os rumos das principais competições. Fundos norte-americanos e fundos soberanos do Oriente Médio são vistos como favoritos a ocupar cadeiras no conselho de administração.
Esses agentes econômicos já atuam no futebol por outras vias, como patrocínios, propriedade de clubes europeus, redes multi-clubes e negociação de direitos comerciais. A CVC Partners, por exemplo, detém 13% de La Liga e da Ligue 1, embora acordos semelhantes tenham fracassado na Alemanha e na Itália. A FFE, portanto, não é uma invenção isolada, mas a consolidação de uma tendência.
O fato de a UEFA liderar a resistência, com discurso de “defesa do futebol”, causa estranheza: nenhuma outra entidade foi tão permissiva com o capital norte-americano quanto a federação europeia, que contornou regras para permitir que clubes de um mesmo dono disputassem a Champions League. A posição da UEFA também é influenciada pela disputa com a FIFA pelo controle do calendário internacional, com cargas de jogos cada vez mais pesadas para os atletas.
O capital norte-americano se consolidou no futebol após o FifaGate, que derrubou a antiga cúpula, e a escolha dos Estados Unidos como sede da Copa de 2026 acelerou a aquisição de clubes e direitos comerciais. Agora, com o sucesso comercial previsto para 2026, com faturamento estimado em 11 bilhões de dólares, esses investidores se sentem autorizados a cobiçar parte da própria FIFA. Resta saber se a húbris de Infantino, como na tragédia de Ícaro, o levará a uma queda irreversível.



