A Fifa recuou do plano de constituir uma empresa para vender participações em ativos comerciais, conforme revelou a imprensa europeia. O projeto, idealizado pelo presidente Gianni Infantino, encontrou forte resistência de federações como Uefa e Concacaf, que chegaram a ameaçar boicote a competições da entidade. Agora, o ex-goleiro Gianluigi Buffon, campeão mundial pela Itália em 2006, entrou no debate e afirmou que a proposta o preocupa profundamente.
Plano de investimentos privados foi arquivado
De acordo com informações de bastidores, Infantino queria criar um veículo societário para negociar fatias de contratos comerciais da Fifa, sobretudo os ligados à Copa do Mundo. A medida permitiria a entrada de capital privado nas receitas da entidade, mas gerou reação negativa imediata. Uefa e Concacaf, as confederações que mais se opuseram, entenderam que a interferência externa poderia comprometer a organização dos torneios e a autonomia do futebol.
Diante do impasse, o dirigente suíço abandonou a ideia, mas o assunto segue gerando polêmica. A crise se agravou depois que a Uefa declarou publicamente ter perdido confiança em Infantino e exigiu reformas na entidade. Pouco antes, o principal assessor do presidente deixou o cargo, em um contexto diretamente ligado ao plano de vender participações na Copa.
Em entrevista à Gazzetta dello Sport, Buffon não escondeu sua apreensão. "A Copa do Mundo foi ótima, mas não consegui tolerar certas coisas. No entanto, trazer investimento privado para a Copa do Mundo me assusta", afirmou o ex-jogador de Juventus e Paris Saint-Germain. Ele acrescentou que, se certos limites forem ultrapassados, atitudes firmes serão necessárias. "Só assim o mundo poderá ser um lugar melhor", completou, em referência direta à ameaça de boicote da Uefa às competições da Fifa.
Árbitro somali citado como exemplo
Durante o desabafo, o ex-capitão da seleção italiana relembrou um episódio que considera emblemático. Citou o árbitro Omar Abdulkadir Artan, da Somália, que teve o visto negado para entrar nos Estados Unidos e, por isso, não pôde apitar na Copa do Mundo. "Assim como não fizeram quando o pobre árbitro somali foi mandado para casa sem que ninguém dissesse uma palavra", disparou Buffon.
O caso ganhou repercussão internacional e expôs as dificuldades enfrentadas por profissionais de países com menos tradição no futebol. Buffon usou o exemplo para criticar a postura da Fifa diante de injustiças enquanto a entidade busca ampliar suas receitas no mercado.
O desafio da Itália na Copa de 2030
Na mesma entrevista, Buffon falou longamente sobre a situação da Itália, seleção que ficou fora das últimas três edições da Copa do Mundo. Para ele, o objetivo principal do time é reconquistar uma vaga no Mundial de 2030. "Agora temos que voltar atrás e torcer para reencontrar o ímpeto que nos levou ao Campeonato Europeu", afirmou, lembrando o título da Eurocopa conquistado em 2021.
O ex-goleiro, que até o início do ano atuava como chefe de delegação da Azzurra, deixou o posto depois do fracasso nas eliminatórias para a Copa de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Pela primeira vez na carreira, ele pretende se dedicar à família e, por isso, recusou convites para retornar à seleção.
Buffon revelou que ficou "impressionado" com Infantino quando o conheceu ainda como candidato à presidência da Fifa. Mesmo assim, deixou claro que essa admiração inicial não o impede de criticar os rumos da entidade máxima do futebol.
Mudanças na comissão técnica italiana
A seleção italiana passou por uma reformulação recente. Maldini e Leonardo, que integravam o projeto da Azzurra, deixaram suas funções por defenderem a contratação de um novo treinador. Eles haviam escolhido Andrea Pirlo para o cargo, mas a federação optou por Roberto Mancini como técnico e Claudio Ranieri como diretor técnico.
Buffon também comentou a possibilidade, que chegou a ser cogitada, de contratar Pep Guardiola. Para ele, a solução dos problemas da equipe nacional não passaria necessariamente pela chegada do treinador espanhol. "Ele é o maior dos últimos trinta anos, mas treinou clubes. A seleção nacional é outra história", disse à Gazzetta dello Sport.
Crítica à base e à formação de jovens
O campeão mundial observou que "ninguém se importa" com o trabalho realizado na seleção, apenas com os resultados. Na visão dele, os torcedores não têm noção do esforço necessário para colocar jovens jogadores em campo. "Eles não sabem como é difícil fazer com que os jovens jogadores joguem", desabafou.
"Antigamente, isso talvez fosse compreensível; hoje, é inaceitável. Porque éramos a liga de referência e tínhamos campeões. Hoje, talvez estejamos em quinto lugar na Europa, mas existe a pressão habitual, treinadores que lutam por um lugar todos os domingos, torcedores implacáveis: somos uma liga de transição, os grandes clubes enviam seus jogadores para cá para se desenvolverem e, apesar disso, não há espaço para os nossos jovens jogadores", afirmou.
Buffon concluiu com uma reflexão sobre as mudanças no esporte. "Apenas fingimos não entender que o futebol mudou completamente nos últimos vinte anos", finalizou.



