Portuguesa perde para Uberlândia-MG e precisa reverter no Canindé
Portuguesa perde para Uberlândia-MG e precisa reverter

Portuguesa sofre derrota por 2 a 0 para o Uberlândia-MG no jogo de ida das oitavas de final da Série D

O sentimento da torcida da Portuguesa ao deixar o estádio Parque do Sabiá, logo após a derrota por 2 a 0 para o Uberlândia-MG pelo jogo de ida das oitavas de final da Série D, era um misto de tristeza e preocupação com revolta e incredulidade. A tristeza, claro, pelo placar após cruzar quase 600 quilômetros. A preocupação, óbvio, pela necessidade de reverter no Canindé. A revolta, lógico, pela atuação desastrosa no primeiro tempo. A incredulidade, evidente, pelas displicências que geraram tudo isso.

Primeiro tempo desastroso e erros defensivos

Logo nos primeiros minutos, era alarmante o espaço deixado pela Lusa para que o Uberlândia-MG se instalasse no campo de ataque. Um dos exemplos mais nítidos era o do artilheiro do time mineiro, Tomas Bastos, totalmente confortável em campo. O gol que abriu o placar, aos 15 minutos, era questão de tempo caso a Portuguesa não corrigisse a marcação. Qualquer um que estudou um pouco o Uberlândia-MG sabia que não havia como conceder terreno, principalmente nas transições rápidas.

O lance que deixou o Uberlândia-MG em vantagem foi o retrato mais escandaloso e até estereotipado do que não fazer em um jogo desses. Jamais aquela bola poderia ser infiltrada por ali com tamanha facilidade. Muito menos dominada e finalizada. Ainda que toda a cadeia de erros acontecesse, jamais o zagueiro lusitano Carlos Lima poderia permitir ao atacante Jhonatan chutar. O defensor conseguiu o mais difícil, que foi recuperar o atraso e ganhar na corrida. Mas de que adiantou? O que fez? Nada.

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Carlos Lima teve tempo e terreno para tentar dar o bote, ainda na bola. Ou, em último caso, fazer a falta. Podendo, inclusive, ficar só com o amarelo se chegasse minimamente na bola. Mas, ainda se fosse para levar o vermelho, era o caso sim de derrubar. Uma jogada que guarda muita semelhança com aquela da fase de grupos, envolvendo o outro zagueiro, Eduardo Biazus, nos instantes finais do 1 a 1 com o América-RJ fora de casa. Se lá já valia trocar um vermelho por um gol sofrido, imagine em um mata-mata.

Expulsão de Cadorini e descontrole emocional

Pior que levar o 1 a 0 com dois terços do primeiro tempo por jogar foi ver Lusa se desestabilizar totalmente em campo. E, aqui, não dá nem para justificar com base em uma pressão absurda do Uberlândia-MG nos minutos que se seguiram. O time mineiro, aliás, até arrefeceu as linhas esperando a Portuguesa. O que não foi de todo errado, afinal, a partir dali a equipe rubro-verde errou todos os passes e todas as tentativas de ligação rápida ou direta que tentou. Nervosismo, afobação, desequilíbrio.

A Lusa só foi conseguir voltar ao jogo, se é que havia entrado nele no apito inicial, por volta dos 35/40 minutos. Quando, enfim, conseguiu ficar no campo de ataque, trocar passes, criar chances ainda que incipientes de gol. Havia um traço de equilíbrio. Até que, já nos acréscimos, Cadorini desequilibrou a si próprio. O atacante dos gols de cabeça usou o principal instrumento de trabalho para... cabecear o defensor Rayan. Fora da disputa de bola, claramente revidando alguma provocação do adversário.

Uma reação displicente, irresponsável e até certo ponto ingênua. Era, para piorar o cenário, o primeiro jogo com VAR da Série D. Ou seja, um elemento a mais para Cadorini não fazer aquilo. Se é que havia alguma circunstância que justificasse. Aí tudo se complicou de vez. A Portuguesa teria, como teve, todo o segundo tempo com um jogador a menos.

Segundo tempo de pressão sem gols e chances perdidas

O técnico Ademir Fesan sacou os dois jogadores que faziam o corredor esquerdo, Salomão e Lucas Hipólito, e pôs Denis e Cauari. A Lusa, então, ficou com Bertinato no gol; Carlos Lima ainda mais à esquerda para fechar o corredor, Botteghin centralizado e Biazus ainda mais à direita; Cauari ficou com a incumbência de descer ao ataque pela esquerda e João Vitor pela direita. Thiaguinho e Portuga se mantiveram no meio, um pouco mais marcadores. Na frente, Igor Torres acabou sendo mais centralizado para virar uma referência para eventuais descidas ao ataque da Lusa.

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Os primeiros minutos da etapa final não foram ruins. Na verdade, o início do segundo tempo foi o melhor momento da Portuguesa. O Uberlândia-MG, em vez de partir para cima e tentar o segundo gol logo, com um jogador a mais, ficou cauteloso na defesa esperando o adversário se abrir. A Lusa, atrás no placar, tomou a iniciativa. Foram cerca de 15 minutos de pressão rubro-verde. Momento do jogo em que o time treinado por Ademir Fesan poderia muito bem ter igualado o placar. O goleiro Guilherme Nogueira virou o grande nome. Foram pelo menos três escanteios fechados, e duas cabeçadas bem realizadas, que pararam nas mãos do goleiro.

Foi aquele o principal e único momento em que a Portuguesa, mesmo em desvantagem numérica em campo, esteve melhor e criou. Só que o Uberlândia-MG, depois dessa pressão, adiantou as linhas, imprimiu velocidade e começou a fazer o que se espera de um time nessas condições. A partir dali, sejamos sinceros, o time mineiro desperdiçou a chance de resolver as oitavas de final. Teve bola tirada em cima da linha por Botteghin, teve defesa de Bertinato a queima roupa, teve bola triscando a trave esquerda da Lusa, teve bola espalmada pegando no jogador dentro da área e quase entrando, teve bola sobre o travessão com gol aberto.

Sim, o Uberlândia-MG fez o 2 a 0 com Léo Reis aos 32 minutos em um lance em que dá para culpar todo o sistema defensivo da Portuguesa. Mas já era hora de desespero do lado rubro-verde com um a menos e foi pouco para o que o time da casa criou. É verdade que Fesan ainda tentou alguma coisa colocando os atacantes Toró e João Diogo em campo, mas nenhum deles fez nada a não ser errar passes. Também pôs Sciência na vaga de João Vitor, mas aí foi só para evitar segundo amarelo mesmo. A Portuguesa ficou nas cordas e, por incompetência do Uberlândia-MG, não voltou a São Paulo sem chance alguma de reverter.

Perspectivas para o jogo de volta no Canindé

Agora, ou ganha por três gols de diferença e passa, ou vence por dois gols de diferença e leva a decisão aos pênaltis. Só que, para isso, é preciso que a Portuguesa finalmente encare essas oitavas de final como o que ela é: mata-mata. Concentração, foco, disciplina, sobriedade, compromisso, responsabilidade. O time luso, em Minas Gerais, esteve desconectado da realidade. Não soube, à exceção dos primeiros minutos do segundo tempo, jogar o jogo. Adaptar-se ao contexto. Ter a postura que uma decisão pede.

Que as promessas de Thiaguinho e Botteghin, à beira do gramado, para a torcida, sejam cumpridas. Há, sim, o que eles pediram: uma segunda chance. São os 90 minutos do jogo da volta, no Canindé, neste sábado, às 16h. Ninguém que defende a Portuguesa dentro de campo tem o direito de jogar a toalha, desistir, abrir mão. Há que se lutar até o último segundo. Caberá ao técnico Ademir Fesan resolver o problema que Cadorini arrumou. Não há substituto de origem para a posição. Não parece prudente, e nem produtivo, mudar o esquema com três zagueiros. Só que, do meio para a frente, são necessárias mudanças.

Não para por aí. Lembra da torcida da Lusa deixando o estádio Parque do Sabiá e daqueles sentimentos misturados? Enquanto esperavam os portões serem abertos, os torcedores conversavam e um tema era praticamente unânime: o Canindé. Trata-se de uma torcida que já deu segundas, terceiras, quartas e quintas chances. Quase sempre teve a decepção como retribuição. Uma torcida que já assistiu a várias eliminações dentro de casa. Que já acreditou em viradas ilusórias diversas vezes.

Porém, de nada adianta jogar a toalha agora. Se os jogadores não têm o direito de fazer isso por dignidade, profissionalismo e respeito à camisa que vestem, a torcida não pode pelo compromisso consigo mesma. São os 90 minutos pelos quais se pediu por anos. Foi a torcida que não deixou esse clube acabar, transformou em SAF e deu a chance de se tentar o que se está tentando hoje: subir. Há revolta? Há incômodos? Há críticas? Sim. E quase todas muito válidas. Várias delas escritas há tempos neste espaço aqui. No entanto, de que adianta fazer isso antes ou durante esses 90 minutos? Apenas se ajudará a jogar no lixo a chance de reverter. De fazer o que se precisa: jogar.

Se não der, todos terão espaço e tempo para apontar os erros que, de fato, existem. Antes disso, contudo, não faz sentido. É desonestidade intelectual e sentimental. É legítimo e absolutamente compreensível não acreditar. Só que esse jogo de volta é para quem acredita. O Canindé precisa deixar de ser peso e, finalmente, virar ativo. É preferível ter 1,5 mil apoiando até o apito final do que 10 mil que começam a xingar, vaiar e inviabilizar uma virada no Canindé com poucos minutos sem gol. Vai ter cera, antijogo e tudo mais. Todos, porém, precisam estar como o time não esteve na partida de ida: conscientes do papel e da responsabilidade. Desistir nunca foi e não é opção.

*Luiz Nascimento, 34, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.