Cauã Reymond, de 46 anos, precisou aprender a atuar em várias posições dentro e fora de campo para tirar do papel a série “Jogada de Risco”, do Globoplay. Criador, diretor e protagonista da produção, o ator comparou o desafio ao de um atacante que marca o gol e ainda volta para ajudar a defesa. A aposta deu resultado: bastou o primeiro episódio ir ao ar para a internet repercutir cenas de sexo, violência e nudez.
O lado oculto do futebol
Segundo Cauã, a “inteligência tática” do projeto foi justamente mostrar o que acontece nos bastidores do futebol e que poucos torcedores enxergam. A série aborda temas como homossexualidade, saúde mental, apostas, corrupção e prostituição, sempre com uma trama fictícia, mas inspirada em relatos reais.
Em entrevista, o ator revelou que a ideia nasceu há mais de seis anos, quando conversou com jogadores atuais e ex-jogadores, agentes e assessorias de clubes para mergulhar no universo “proibido” do esporte. “Meu desejo sempre foi ter uma série inspirada na realidade e nunca em fatos reais, porque não queremos problema com ninguém. Ao longo da pesquisa, eu dizia: ‘Me conta o milagre, mas não me conta o nome do santo’. Foi muito impactante”, contou.
Nudez sem tabu
Uma das cenas mais comentadas da estreia é o confronto no vestiário entre os jogadores Geraldo, vivido por Breno Ferreira, e Nacho, interpretado por Ramiro Martinez, totalmente nus. Cauã Reymond defendeu os colegas e disse que a equipe estava preparada para a repercussão.
“Os atores foram muito corajosos e estavam relaxados. Eles ficaram felizes com o resultado. Claro, isso gerou um burburinho, e a gente já sabia que aconteceria”, analisou. Ele também afirmou que avisou o elenco sobre as cenas antes de gravarem e que nada foi imposto. “Tudo é conversado. Tem que apresentar o projeto da forma como ele vai ser filmado. Em momento algum, dá para surpreender o elenco, seria antiético. Há até coordenador de intimidade para esse tipo de cena”, explicou.
O próprio ator aparece nu em algumas sequências, principalmente nas relações de seu personagem, Maurício, com Rita, interpretada por Leticia Colin. Não é novidade para Cauã, que já havia contracenado sem roupa na minissérie “Dois Irmãos” (2017) e nos filmes “Piedade” (2021) e “A Viagem de Pedro” (2022). “Coloquei o meu pra jogo várias vezes (risos). Em ‘Dois Irmãos’, fiz cena sem tapa-sexo. Em nenhum momento me senti invadido. Quando cortavam a sequência, me davam uma toalhinha, me cobriam... E, quando voltava a rodar, tirava. Faz parte do nosso trabalho, mas também acho importante que seja uma escolha do ator. É muito legítimo a pessoa não se sentir confortável”, avaliou.
Carreira multifacetada
“Jogada de Risco” não é a primeira vez que Cauã Reymond atua também como produtor. A experiência inicial foi no filme “Se Nada Mais Der Certo” (2008). Depois, ele passou a conciliar as funções em outros trabalhos, especialmente no cinema. O ator afirmou que se sente maduro para essa pluralidade.
“Quando nasce a ideia de fazer a série, eu me sinto maduro, corajoso e impetuoso. Venho descobrindo uma pluralidade na minha forma de trabalhar. Em mais de duas décadas de profissão, busquei ser observador e curioso. Fui aprendendo a cada sucesso e a cada insucesso”, ressaltou.
A relação com o pai e o irmão
Na trama, Maurício tem uma relação conflituosa com o pai, Valdemar, interpretado por Marcos Frota. O personagem é um ex-empresário de futebol que prejudicou a carreira do filho. Fora das telas, Cauã também passou por um afastamento do pai, José Marques, ainda na infância, quando os pais se separaram. Ele foi morar com o pai no Sul durante a adolescência.
“Era uma relação a distância. Ele não vem de uma família extremamente rica, então esse deslocamento não era barato nem rápido. Quando morei com ele em Santa Catarina, vinha lutar os campeonatos de jiu-jítsu no Rio de ônibus. Saía de lá sexta, lutava sábado e voltava domingo. Gostaria de ter sido bem mais próximo do meu pai. Hoje, a nossa relação é muito boa, inclusive ele me dá grandes conselhos. É uma relação diferente da de Maurício e Valdemar. Mas empresto as nossas ausências e medos para o personagem”, comparou.
A proximidade com o futebol, porém, veio do irmão mais novo, Pável, oito anos mais jovem. “Meu irmão é flamenguista doente. Para construir uma conexão com ele, já que fomos criados separados, comecei a entender de futebol. Quando meu irmão saiu da minha casa para fazer faculdade, continuei a me alimentar do universo do futebol”, contou o também rubro-negro, que não pode jogar bola por causa de uma lesão no quadril sofrida em 2010.
Cigarro de alface e saúde mental
Em cena, Maurício vive quase sempre com um cigarro na boca. Como Cauã não fuma, ele precisou de alternativas para compor o vício do personagem. “Fumava cigarro de alface ou de camomila. Ia trocando para não enjoar. Fiquei com muita tosse”, revelou. Para ele, o objeto representa a ansiedade e a compulsão do ex-jogador. Maurício “tem ansiedade e compulsão. O futebol deixou um vazio, tornou a vida dele um caos. O cigarro preenche a angústia desse cara que está toda hora resolvendo problema”, avaliou.
A saúde mental é um tema caro ao ator, que faz terapia desde os 14 anos. “Eu discuto tudo na análise. É um lugar neutro para dividir ideias. Como sou pessoa pública, sei que nessa conversa não vai ter julgamento. Atualmente penso muito nas contradições do ser humano”, refletiu.
Família e legado
Pai de Sofia, de 14 anos, fruto do casamento com Grazi Massafera, Cauã Reymond diz que gosta de conversar com a filha sobre as complexidades da vida. “É muito gostoso conversar com a minha filha. Mesmo sendo muito jovem, ela já tem contradições. Hoje me sinto mais relaxado para falar sobre qualquer assunto. A vida tem altos e baixos. É importante dividir os pensamentos com ela, para que possa presenciar minhas mudanças”, analisou.
Emocionado, o ator lamentou que a mãe, morta em 2019, aos 55 anos, vítima de câncer, e o avô, Carlos, não estejam vivos para celebrar o sucesso da nova produção. “Ando muito emotivo. Quando penso na minha mãe, sinto algo gostoso. Acredito que ela esteja vendo minhas conquistas. Daria tudo para que meu avô estivesse assistindo a ‘Jogada de Risco’. Eles me fizeram acreditar no meu sonho. Tento ter disciplina e consistência, porque só assim o talento desabrocha. Estou sempre buscando uma base sólida. Isso talvez tire o meu sono também de vez em quando”, desabafou.



