O quarteto carioca Escafandristas, formado em 2024 com a proposta de oferecer novas perspectivas sobre a obra de Chico Buarque, acaba de lançar seu primeiro álbum, intitulado Escafandristas cantam Buarque. O disco chegou às plataformas digitais na quarta-feira, 18 de junho, estrategicamente na véspera do 82º aniversário do compositor, celebrado nesta sexta-feira, 19 de junho. Com direção musical de Thiago Amud (voz e violão), o álbum reúne 15 faixas que transitam entre o respeito às melodias e letras originais e uma ousada reinvenção harmônica e rítmica.
Uma abordagem única
Diferentemente de um mero cover, os Escafandristas – formados por Thiago Amud, Alice Passos (voz, flauta, violão e percussão), Luisa Lacerda (voz e violão) e Renato Frazão (voz e baixo) – alteram harmonias e ritmos, criando uma experiência sonora distinta. O álbum, portanto, não é indicado para karaokês, especialmente pela refinada harmonização vocal que caracteriza faixas como Brejo da cruz (1984), que conta com a participação do cantor Giuliano Eriston, e Sonhos sonhos são (1998), uma composição menos conhecida do repertório escolhido pelo quarteto a partir de cerca de 80 músicas pré-selecionadas para o show iniciado em outubro de 2024.
Destaques do álbum
A abertura com Construção (1971) é um feito notável: a gravação consegue se desvencilhar do arranjo icônico de Rogério Duprat, apresentando uma nova roupagem. O dueto de Thiago Amud com Luísa Lacerda em Morro Dois Irmãos (1989) evidencia a afinidade vocal de Amud com Chico, enquanto Renato Frazão brilha em Cotidiano (1971), com um arranjo que evoca a repetição do cotidiano conjugal por meio de pausas sincronizadas com os versos.
Citações e participações especiais
O álbum é repleto de citações sagazes: Futuros amantes (1993) inclui um trecho de Eu te amo (1980), enquanto Corrente (1976) é entrelaçada com Mambembe (1972). Em Morena dos olhos d'água (1966), há menções a Morena do mar (1972), de Dorival Caymmi, e à ciranda Na ilha de Lia, no barco de Rosa (1988). A faixa Assentamento (1997) é marcada por um canto em uníssono que, embora contenha alguma emoção, mantém a sofisticação musical do grupo.
Um dos momentos mais emocionantes é O que será (À flor da terra) (1976), com a recitação de versos do parceiro de Chico, Ruy Guerra, em meio a um canto majoritariamente a capella. Além disso, as cinco netas de Chico Buarque – Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa – uniram-se pela primeira vez em estúdio para cantar As minhas meninas (1987) com os Escafandristas, incluindo uma citação de Acalanto para Helena (1971). O álbum se encerra com a terna Tempo e artista (1993), reafirmando a capacidade do quarteto de remodelar a obra de Chico Buarque com a sofisticação que caracteriza o grupo, em um momento em que a música do compositor já alcançou a glória e vislumbra o infinito.



