No livro “Niterói En(canto): a cidade em 32 canções”, o historiador Victor Andrade de Melo trata a música não como mero pano de fundo, mas como uma fonte histórica. Cada uma das 32 composições selecionadas é ponto de partida para pensar a cidade, seus personagens e suas transformações. A obra, que ganha uma exposição na Biblioteca Parque de Niterói, leva o conteúdo para além das páginas.
A escolha das canções não é arbitrária. Elas foram reunidas para compor um retrato plural de Niterói, abrangendo gêneros, épocas e visões distintas. A viagem musical começa ainda no século XIX, com uma modinha, e chega ao rap contemporâneo de grupos como Oriente e artistas como Black Alien. Nesse percurso, o leitor encontra diferentes maneiras de interpretar a cidade, da saudade e do amor à crítica social.
Música como documento
Victor Andrade de Melo é historiador e, em “Niterói En(canto)”, ele reforça a ideia de que canções são capazes de registrar o espírito de uma época. Mais do que entretenimento, as letras funcionam como um arquivo afetivo das cidades. Ao escolher 32 músicas, o autor organiza um verdadeiro acervo da memória niteroiense.
No caso de Niterói, essa memória é marcada pela proximidade com o Rio de Janeiro e pela condição de cidade que já foi capital estadual. A música surge como um caminho para observar essas transformações. Uma modinha do século XIX pode revelar valores da sociedade imperial; um rap dos dias atuais pode traduzir as contradições da vida urbana. O livro propõe exatamente esse diálogo entre passado e presente.
Da modinha ao rap
O recorte temporal da obra é um de seus principais atrativos. O livro parte de uma modinha do século XIX, gênero que ganhou força no Brasil naquele período. Essas canções, geralmente acompanhadas de violão ou cravo, falavam de amor e de saudade, e circularam amplamente nos salões. A presença da modinha mostra que a relação de Niterói com a música não é recente.
No outro extremo, o rap aparece com grupos como Oriente e artistas como Black Alien. Esses artistas representam uma nova geração de compositores que encontrou na cidade uma fonte de inspiração. O rap, assim, completa um arco que atravessa mais de um século de história. A diversidade de estilos revela que a cidade continua a provocar o imaginário musical.
O que se descobre no livro
De acordo com a proposta do trabalho, cada canção escolhida recebe uma análise detalhada. O historiador não se limita a comentar a letra: ele a insere em um contexto cultural e social. Interessa saber quem compôs, para quem cantou, o que estava acontecendo na cidade naquele momento. Essa abordagem aproxima a história da vida cotidiana e transforma a obra em um instrumento para entender Niterói de forma sensível.
A seleção de 32 canções permite que o leitor perceba permanências e mudanças. Alguns temas se repetem, como o encanto pela paisagem da baía e a referência aos bairros da cidade. Outros são novos, como os relacionados à violência urbana e às desigualdades sociais. Nesse sentido, o livro ajuda a compreender como a canção popular brasileira dialoga com o lugar que a inspira.
Exposição amplia o alcance
A obra também ganha uma exposição na Biblioteca Parque de Niterói. A mostra é uma oportunidade para o público conhecer a pesquisa de Victor Andrade de Melo de outra forma. Com recursos visuais, painéis e informações sobre as canções, a exposição busca trazer para o ambiente cultural uma síntese do trabalho contido no livro. A Biblioteca Parque, espaço público de leitura e cultura, torna-se o cenário ideal para esse encontro.
A exposição também representa um esforço de popularização da história. Nem todos têm acesso ao livro, e a mostra abre uma porta para que a pesquisa chegue a mais pessoas. Essa iniciativa costuma chamar atenção de estudantes, pesquisadores e curiosos. A música, nesse contexto, funciona como um convite para revisitar a cidade e sua memória.
Niterói em cena
“Niterói En(canto)” é, no fim das contas, um livro sobre a cidade. Victor Andrade de Melo utiliza as 32 canções como peças de um mosaico que revela a transformação de Niterói ao longo do tempo. O resultado é um trabalho que interessará tanto aos estudiosos quanto aos que simplesmente amam a cidade e a música. Ao unir erudição e sensibilidade, o autor constrói uma narrativa original sobre um lugar que poucas vezes foi tão cantado.
O livro e a exposição se complementam. Enquanto as páginas permitem uma leitura aprofundada e silenciosa, a mostra oferece uma experiência mais direta para o visitante. Em comum, ambos partem da mesma certeza: as canções guardam a memória de um povo e de seus lugares. Com essa obra, Niterói ganha o seu próprio cancioneiro, reunido e interpretado à luz da história.



