Artesão de 83 anos transforma pés de café em móveis e decoração em MG
Artesão usa pés de café para criar móveis e decoração

No coração do Sul de Minas, o município de Cabo Verde é conhecido pela produção de cafés especiais, e é justamente do pé de café que um artesão local constrói móveis e objetos de decoração. Paulo Esteves, de 83 anos, aprendeu a marcenaria com o pai há mais de seis décadas e, desde então, desenvolveu um trabalho que une tradição e inovação. Há quase vinte anos, ele começou a usar a madeira dos cafezais, até então descartada, como matéria-prima. A iniciativa não só criou um novo estilo de artesanato, mas também ajudou a fortalecer a identidade cultural da cidade.

A pergunta que mudou tudo

O ponto de partida para essa transformação foi uma conversa com um professor. "O professor perguntou por que eu não mexia com madeira de café. Naquela noite eu não dormi, pensando por que eu não sabia por onde começar, como eu começava", relembra Paulo. O incômodo da pergunta sem resposta se transformou em motivação. Ele passou a experimentar a madeira do café, testando cortes e acabamentos, até conseguir produzir as primeiras peças.

A mais antiga delas, guardada com carinho até hoje, é uma pequena caixa sobre um pedestal, idealizada para guardar documentos e, ao mesmo tempo, decorar a casa. A partir dela, o artesão desenvolveu um repertório próprio, que hoje impressiona pela delicadeza dos detalhes e pela criatividade aplicada a um material que até então não era valorizado.

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Matéria-prima abundante e identidade regional

Cabo Verde tem na cafeicultura sua principal atividade econômica. Os troncos de café, que geralmente são descartados após o ciclo produtivo, se tornaram a assinatura do trabalho de Paulo. No fundo da marcenaria, entre troncos empilhados, ele observa cada pedaço de madeira e decide qual será o próximo a ganhar forma. O processo exige paciência e um olhar capaz de enxergar possibilidades onde muitos enxergam apenas lenha.

Para dar acabamento e criar desenhos exclusivos, Paulo utiliza a marchetaria, uma técnica que consiste em colar pequenos pedaços de madeira de café um a um, formando composições harmônicas. A precisão desse trabalho é admirável: cada fragmento precisa ser cortado e encaixado perfeitamente para que o desenho final se revele. Peças como mandalas, que fazem parte do acervo produzido pelo artesão, revelam o nível de detalhamento dessa técnica.

Peças que circulam pela cidade

Os trabalhos de Paulo estão à venda na Casa do Artesão de Cabo Verde, um espaço colaborativo que reúne mais de 50 artesãos do município. Lá, é possível encontrar baús, mesas, cadeiras e mandalas produzidas com a madeira de café, que também decoram o ambiente da cafeteria instalada no local. A integração entre o artesanato e o café faz desse espaço um ponto de encontro entre a produção agrícola e a cultura regional.

Grande parte dessas peças foi criada durante um curso realizado há quase vinte anos, no qual Paulo ajudou a ensinar a técnica a outros moradores. O compartilhamento do conhecimento permitiu que a madeira de café chegasse a um número maior de famílias e contribuiu para o surgimento de novas possibilidades de renda no município.

Muito além das peças de madeira

A Casa do Artesão também comercializa outros produtos típicos da região. Helena Viana, tesoureira do espaço, destaca a diversidade de itens derivados do café e as tradições locais. "A gente vende os cafés especiais de Cabo Verde, licor de café, tem doces de café, tem várias coisas derivadas do café. E a gente tem os bordados, que as mulheres fazem. Coloca aqui os bordados antigos, bordados à mão, pontinho por pontinho, que a gente quase não acha mais", afirmou.

Além das peças de madeira, o espaço reúne bordados feitos à mão, cafés especiais e outras iguarias, criando uma vitrine completa da cultura cabo-verdense. A combinação de sabores, texturas e histórias transforma a Casa do Artesão em uma parada obrigatória para quem visita a cidade.

Talento é inato, ensina seu Paulo

Para Paulo, a criatividade é capaz de transformar qualquer material, e o talento é uma característica nata. "Todo mundo já nasce artesão, só que às vezes ele não sabe. Eu jamais pensaria que eu ia trabalhar com madeira de café. Estou muito feliz", diz.

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Aos 83 anos, Paulo Esteves segue em atividade, provando que o aprendizado e a inovação não têm idade. Sua história inspira as novas gerações e mostra que o café, símbolo econômico da região, também pode ser matéria-prima de histórias contadas em madeira.