Um refugiado afegão que chegou ao Brasil há três anos criou uma marca de acessórios no Rio de Janeiro que une o artesanato local à geração de renda para outros imigrantes. A iniciativa, que começou como uma forma de reconstruir a vida em um novo país, hoje emprega diretamente cinco pessoas e já comercializou mais de mil peças.
Trajetória de superação
Mohammad Rezaie, de 32 anos, deixou o Afeganistão em 2023 após ameaças do regime talibã por seu trabalho como intérprete de forças estrangeiras. Após uma longa jornada que incluiu passagens por Irã e Turquia, ele desembarcou no Rio de Janeiro com apenas uma mochila e a vontade de recomeçar.
"Eu perdi tudo, mas não perdi a esperança. Quando cheguei aqui, percebi que precisava criar algo que me conectasse à minha cultura e também ajudasse outros refugiados", contou Rezaie em entrevista ao GLOBO.
Nascimento da marca
A marca, batizada de "Herat", em homenagem à sua cidade natal, começou com a produção de pulseiras e colares feitos com pedras naturais e metais reciclados. Rezaie aprendeu a técnica de ourivesaria com um artesão local na Feira de São Cristóvão e decidiu adaptá-la ao estilo brasileiro.
"Percebi que os brasileiros gostam de cores e formas vibrantes. Então misturei o design afegão com o tropical", explica. Cada peça é produzida manualmente em um pequeno ateliê no bairro da Lapa, no centro do Rio.
Impacto social e econômico
Além de Rezaie, a equipe é composta por quatro refugiados de diferentes nacionalidades: duas venezuelanas, um sírio e um congolês. Eles recebem salário justo e participam de todas as etapas da produção, desde a seleção dos materiais até a embalagem.
"A marca não é só sobre acessórios, é sobre dignidade. Cada peça vendida representa uma família que pode se sustentar longe da guerra", afirma a socióloga Ana Paula Mendes, que acompanha o projeto voluntariamente.
Reconhecimento e expansão
Em menos de um ano, a Herat já participou de três feiras de moda sustentável no Rio e em São Paulo, e as peças são vendidas em duas lojas colaborativas na Zona Sul carioca. As redes sociais da marca, que mostram o processo artesanal e as histórias dos envolvidos, conquistaram mais de 15 mil seguidores.
"O retorno positivo do público nos motiva a crescer. Nosso próximo passo é lançar uma linha de bolsas feitas com tecidos reciclados", planeja Rezaie.
Desafios e esperança
Apesar do sucesso inicial, Rezaie enfrenta dificuldades burocráticas. O processo de revalidação de seu diploma de engenharia, obtido no Afeganistão, ainda está em andamento, e ele depende de doações para manter o ateliê funcionando. Mesmo assim, ele mantém a esperança.
"No Afeganistão, eu sonhava em ser engenheiro. Aqui, descobri que posso ser um empreendedor social. O Brasil me deu uma segunda chance e quero retribuir", finaliza.
Como apoiar
Interessados podem conhecer as peças pela página oficial da marca no Instagram (@herat.acessorios) ou visitar o ateliê na Rua do Lavradio, 123, na Lapa, que abre de terça a sábado, das 10h às 18h. Parte da renda é destinada a um fundo de apoio a novos refugiados que chegam ao Rio.



