A retrospectiva dedicada ao cineasta finlandês Aki Kaurismaki continua em cartaz no Cinesesc, em São Paulo, com entrada gratuita e programação que se estende até o dia 12 de agosto. A mostra reúne 20 longas-metragens do diretor, incluindo seu mais recente trabalho, Folhas de Outono (2023), premiado com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e indicado a duas categorias do Globo de Ouro. Apesar do reconhecimento internacional, Kaurismaki permanece pouco conhecido do grande público brasileiro, o que torna esta oportunidade ainda mais valiosa para os apreciadores de um cinema autoral e profundamente humano.
Um olhar para os marginalizados
O cinema de Kaurismaki é marcado por uma postura ética e humana inconfundível. Seus protagonistas são, invariavelmente, os elos mais frágeis do tecido social: caixas de supermercado, trabalhadores de minas de carvão, imigrantes desenraizados e outros personagens que ficaram à margem das sociedades do sucesso e da meritocracia. É com eles que o diretor se identifica, acompanhando suas histórias com uma ternura que nunca resvala para o sentimentalismo. Seus filmes emocionam sem serem piegas, usam muita música sem se tornarem melodramas e têm um fundo político claro sem jamais serem panfletários.
Em Folhas de Outono, por exemplo, Ansa e Holappa se conhecem em um bar de karaokê. A atração é mútua, mas o caminho para a felicidade é cheio de obstáculos, principalmente o alcoolismo de Holappa, que Ansa detesta. Como em quase todas as histórias do diretor, os obstáculos são muitos, mas o desfecho nem sempre é trágico – e nem sempre é feliz. O que se mantém é a torcida incondicional do espectador pelos personagens.
A trilogia proletária e o mundo do trabalho
Kaurismaki tem uma predileção especial por registrar o mundo do trabalho. Em A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos (1990), um de seus títulos mais conhecidos, a câmera acompanha todas as etapas da confecção das caixinhas de fósforos, passando por várias máquinas até chegar ao elemento humano, que examina o produto e encerra o ciclo de fabricação. A protagonista, Íris, é interpretada por Kati Outinen, atriz-fetiche do diretor, presente em 13 de seus 20 longas-metragens. Íris é uma garota simples que mora com a mãe e o padrasto, entregando a eles seu salário. Vai a bailes, mas ninguém a tira para dançar; passa a noite com um homem, mas ele tampouco a deseja de verdade. O filme é um estudo sobre a frustração e seus efeitos sobre uma pessoa sensível.
Esse longa integra a chamada trilogia proletária do diretor, ao lado de Sombras no Paraíso (1986) e Ariel (1988). Em Sombras no Paraíso, Nikander trabalha na coleta de lixo e não vê perspectiva até conhecer Ilona, uma caixa de supermercado. Já em Ariel, Taisto fica desempregado quando a mina de carvão onde trabalha fecha. Ele vai para Helsinque, é assaltado e vive à deriva, até conhecer uma simpática guarda de trânsito que vive com o filho. O navio Ariel, que dá nome ao filme, simboliza a promessa de evasão e de uma vida melhor.
Música, minimalismo e a comparação com Bresson
A obra de Kaurismaki é frequentemente comparada à do francês Robert Bresson, principalmente pelo minimalismo na direção de atores. O diretor finlandês parece pedir a seus intérpretes: não interpretem, não exagerem, contenham-se. No entanto, as diferenças são marcantes. Enquanto Bresson quase não usa música em seus filmes, em Kaurismaki a música tem papel central. Os diálogos são econômicos, mas a ternura do diretor com seus personagens transparece, contrastando com a sobriedade de Bresson. Kaurismaki está ao lado de seus personagens, acompanhando-os na tristeza e nos raros momentos felizes, na pobreza (quase sempre) e na riqueza (quase nunca).
Essa radiografia da desolação se aplica à Finlândia, que paradoxalmente é uma das sociedades com maior IDH do mundo e campeã de felicidade em pesquisas. Mas nos filmes de Kaurismaki, vemos que mesmo em sociedades onde o capitalismo parece dar certo, a desolação impera. O sistema não foi feito para seres humanos. Essa crítica é simbolizada em O Homem sem Passado (2002), um de seus melhores filmes, que rendeu o Grande Prêmio do Júri em Cannes e uma indicação ao Oscar de filme em língua estrangeira. Na trama, um homem chega a Helsinque, é espancado por ladrões e perde a memória. Quem o ajuda é uma moça do Exército da Salvação, dando início a mais uma história de amor problemático entre dois seres frágeis que se amparam.
Imigração e outros temas
O cinema solidário de Kaurismaki também aborda a imigração, uma das questões mais urgentes e dolorosas da Europa atual. Em O Porto (Le Havre, 2011), um garoto africano imigrante ilegal que busca parentes na Inglaterra recebe ajuda dos moradores da cidade, especialmente de um engraxate idoso. Já em O Outro Lado da Esperança (2017), Khaled, um rapaz sírio, chega à Finlândia e procura pela irmã desaparecida no êxodo de civis que tentam escapar da guerra. O filme rendeu a Kaurismaki o Urso de Prata de Direção no Festival de Berlim.
Ocasionalmente, o diretor busca outros temas e personagens. A Vida Boêmia (1992), rodado na França, narra a amizade de três artistas – o escritor Marcelo, o pintor albanês Rodolfo e o músico de vanguarda Schaunard – vivendo em Paris com pouco ou nenhum dinheiro. O ícone da nouvelle vague Jean-Pierre Léaud faz um pequeno papel como um colecionador de obras de arte endinheirado. Em Contratei um Matador Profissional (1990), um homem decide acabar com a própria vida, mas não tem coragem de se suicidar e contrata um assassino profissional. Já Crime e Castigo (1983) é uma releitura singular do clássico de Dostoiévski, com um Raskolnikov finlandês que trabalha num matadouro e está acostumado com sangue.
Por mais que varie de temática, Kaurismaki não perde o foco: busca o que resta de humano numa sociedade desumana. A mostra no Cinesesc é uma oportunidade imperdível para conhecer ou revisitar essa obra singular, que denuncia a desumanização do capitalismo sem perder a ternura jamais.
Programação completa da mostra
A retrospectiva inclui títulos como Crime e Castigo (1983), Contratei um Matador Profissional (1990), Calamari Union (1985), Luzes na Escuridão (2006), O Porto (2011), O Homem sem Passado (2002), Sombras no Paraíso (1986), A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos (1990), Juha (1999), Leningrad Cowboys vão para a América (1989), Folhas de Outono (2023), Leningrad Cowboys Encontram Moisés (1994), Nuvens Passageiras (1996), A Vida Boêmia (1992), Ariel (1988), O Outro Lado da Esperança (2017), Cuide do seu Lenço, Tatjana (1994) e Hamlet Vai à Luta (1987). As sessões acontecem de quinta a domingo, com horários variados, sempre na sala do Cinesesc, com projeção impecável. A entrada é gratuita, mas é recomendável chegar cedo para garantir lugar.



