Livro resgata obra de Tuca, cantora lésbica apagada da história
Livro resgata Tuca, cantora lésbica apagada da história

O livro “Tuca – A cantora lésbica exilada da história”, escrito pelo pesquisador Renato Gonçalves, acaba de ser lançado pela editora O Sexo da Palavra e promete resgatar a trajetória de uma das artistas mais importantes e injustiçadas da música brasileira. A obra, primeira da coleção “Vidas sequestradas”, organizada por César Braga Pinto, traz uma análise aprofundada da produção de Valeniza Zagni da Silva, conhecida como Tuca, que morreu em 1978, aos 33 anos, vítima de parada cardíaca provocada por inanição, consequência de um regime severo adotado para se adequar aos padrões estéticos da época.

Uma artista silenciada pela história

Nascida em São Paulo em 17 de outubro de 1944, Tuca foi cantora, multi-instrumentista, arranjadora e produtora musical. Revelada em 1962, ela logo se destacou pela voz e pela habilidade com o violão, mas também sofreu com a gordofobia, sendo frequentemente mencionada na mídia com referências explícitas às suas formas fartas. O último capítulo da biografia, intitulado “A gordofobia que mata uma obra e uma artista”, expõe como o preconceito contribuiu para o apagamento de seu legado.

Trajetória marcada por obras-primas

Tuca lançou três álbuns ao longo da carreira: “Meu eu” (1965), “Tuca” (1968) e “Drácula, I love you” (1974), este último considerado sua obra-prima e cultuado em nichos específicos. Além disso, ela teve passagens importantes por Paris, onde trabalhou com Nara Leão e Françoise Hardy. Em 1971, autoexilada na capital francesa para escapar da repressão da ditadura militar brasileira, Tuca fez arranjos para o álbum “Dez anos depois”, de Nara Leão, e produziu e arranjou o disco “La question”, de Hardy, com quem também compôs a faixa-título.

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Contribuições pioneiras e pouco reconhecidas

No Brasil, Tuca ganhou projeção na era dos festivais ao defender, em 1966, a canção “Porta estandarte”, de Geraldo Vandré, em parceria com Fernando Lona. Ela também foi parceira de Vandré na composição “O cavaleiro”, apresentada no mesmo ano. Mais do que compilar dados biográficos, Gonçalves analisa a contribuição relevante de Tuca para a construção de um discurso homoerótico pioneiro, presente em músicas como “Girl” e “Sorvete”, compostas em parceria com a artista plástica Jeannette Priolli.

Apagamento e resistência

Poliglota e violonista virtuosa, Tuca atuou em várias frentes da música brasileira, mas nem sempre recebeu o devido crédito. Após voltar ao Brasil na década de 1970, ela passou a atuar à margem do mercado. O fato de o álbum “Drácula, I love you” continuar indisponível nas plataformas de streaming – onde apenas o disco “Tuca” (1968) pode ser ouvido – contribui para manter o apagamento da artista. O livro, no entanto, surge como uma ferramenta importante para reverter esse cenário, trazendo à tona a história de uma mulher que desafiou padrões e deixou um legado musical significativo.

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