Cantora gospel Kathleen Fontoura supera 15 anos de vício em crack e se salva pela música
Cantora gospel vence crack e se salva pela música

Depois de 15 anos, cantora gospel transforma dor em esperança

"As pessoas passavam por mim e me chamavam de lixo. Cuspiam em mim. Parecia que a Cracolândia inteira tinha combinado de fazer a mesma coisa: me chamar de lixo e cuspir em mim. Olhavam para mim com desprezo, com nojo. E eu realmente comecei a acreditar que ia morrer ali, daquela forma, toda suja, largada. Eu sei que Deus olhou para mim com os olhos de amor que só ele tem e falou: 'para mim, você é preciosa'." O relato é da cantora de pagode gospel Kathleen Fontoura, de 40 anos, moradora da Zona Norte de São Paulo, que viralizou recentemente nas redes sociais com vídeos cantando na Avenida Paulista. Kathleen viveu 15 anos no vício das drogas, principalmente do crack, e morou por três anos na Cracolândia. Em entrevista ao g1, ela relembrou a rotina durante o vício e contou como a música ajudou a transformar a própria vida.

Da infância musical ao primeiro contato com as drogas

Nascida em Ribeirão Preto, interior paulista, Kathleen se mudou ainda criança para São Paulo, onde passou a maior parte da vida. Desde pequena, a música ocupava um espaço importante na rotina. Ela lembra que gostava de ouvir Sandy & Junior e pediu um violão para a mãe depois de se encantar pelas músicas da dupla. Mais tarde, quando a mãe se tornou evangélica, passou a ouvir também os CDs de música gospel durante os trajetos de carro. "Eu sempre gostei muito de música. Gostava de sertanejo, pagode, samba, Roberto Carlos. Eu ligava o rádio, pegava um cabo de vassoura e fingia que estava cantando. Quando ouvi uma música da Aline Barros, senti algo diferente. Aquilo mexeu profundamente comigo."

Na adolescência, a família se mudou para Fernandópolis para ficar mais próxima da avó. Foi ali que a rotina mudou completamente. Enquanto em São Paulo a mãe era mais rígida e praticamente não permitia que ela saísse com amigos, no interior a liberdade aumentou. Kathleen passou a frequentar festas, praças e rodas de amigos. "Minha mãe imaginava que, por ser interior, seria mais tranquilo. As amizades eram boas, mas eles já bebiam, fumavam e tinham uma vida que eu desconhecia completamente. Aquilo despertou em mim a curiosidade." Foi nesse período que experimentou cigarro, bebida alcoólica e maconha. Depois vieram cocaína, LSD, lança-perfume e outras drogas. O primeiro contato com o crack aconteceu em uma reunião entre amigos. "Os meninos falaram: 'Hoje não é só maconha. Hoje é maconha misturada com crack. Vocês querem?'. Eu já tinha bebido bastante e aceitei. Passei muito mal, mas pensei: 'Nossa, quero de novo'." Naquele momento, porém, ela ainda não se considerava dependente. "O crack não era uma necessidade. Era aquela coisa: se tinha, usava. Se não tinha, não usava."

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Quando o crack virou um refúgio

Depois de voltar para São Paulo, Kathleen trabalhou por quatro anos como soldado PM temporária, exercendo funções administrativas na Polícia Militar. Ela conta que conseguia manter uma vida normal e, quando estava bem emocionalmente, sequer lembrava das drogas. A dependência começou a ganhar força após o fim de um relacionamento. "Percebi que o crack amenizava a minha tristeza. Ele aliviava a dor do término. Então, comecei a usar como um remédio. Toda vez que eu ficava chateada, recorria ao crack para fugir da realidade." Segundo ela, o consumo foi aumentando de forma lenta, até tomar conta da rotina. "Eu não percebia que ele estava me pegando aos poucos. Quando vi, já estava completamente envolvida." Uma amiga chegou a alertá-la. "Ela falou: 'se você continuar, vai ficar igual às pessoas que moram na rua e usam drogas'. Eu respondi: 'imagina'. Eu acreditava que tinha controle da situação."

Pouco tempo depois, passou dias inteiros dentro do carro consumindo drogas. "Quando percebi, estava havia seis dias dentro do carro fumando crack. Foi quando lembrei da voz daquela menina dizendo que eu acabaria igual às pessoas que viviam nas ruas." Mesmo assim, Kathleen não conseguiu parar. Ela conta que chegou a vender relógios, tênis, celulares, roupas e, por fim, começou a vender até as peças do próprio carro para sustentar o vício. "Eu me via, mas não me enxergava. Estava completamente magra, definhando, e não conseguia perceber o que estava acontecendo comigo. Eu praticamente 'fumei' o meu carro. Vendi tudo".

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

A chegada à Cracolândia

De volta a São Paulo, Kathleen decidiu tirar uma nova via dos documentos e procurar emprego. Mas, antes mesmo de iniciar a tentativa de recomeço, encontrou um grupo de pessoas usando crack na região central da capital. "Começou uma luta muito grande dentro de mim. Eu realmente não queria mais aquela vida. Pensei: 'vou usar só uma vez e depois volto para casa'." Ela conseguiu buscar os documentos, mas, logo depois, conheceu uma mulher que a levou até o espaço conhecido como Cracolândia na capital. "Ela falou: 'vamos para a Cracolândia, porque lá a gente consegue fumar mais e também consegue um cachimbo'. Eu nem imaginava que era tão perto". Ao chegar ao fluxo, a cena a impressionou. "Era algo que eu jamais tinha visto na minha vida. Parecia uma feira, com muita gente. Olhei para um lado e vi viaturas da polícia. Pensei: 'não pode ficar aqui'. Ela respondeu: 'vem, vem'." "Quando vi todo mundo fumando à vontade, sentado na calçada, andando, cantando samba, dando risada, pensei: 'é aqui que eu quero ficar'. Era como se fosse uma Disneylândia para mim."

Na primeira vez que entrou no fluxo, ficou nove dias sem voltar para casa. "Saí para buscar meus documentos e acabei ficando nove dias. Perdi os documentos e uma das coisas que eu mais temia aconteceu: minha mãe descobriu que eu estava usando crack." Ela lembra que estava no meio da multidão quando ouviu alguém avisar que havia familiares procurando por ela. "Quando olhei para trás, vi só a cabecinha da minha mãe no meio daquele monte de gente, procurando por mim." Desesperada, ela conta que tentou fugir. "Corri muito. Até hoje não sei como ela conseguiu me alcançar. Ela falou: 'eu não acredito que criei uma filha para estar aqui. Eu não criei você para isso'." Kathleen aceitou voltar para casa naquele dia. Só depois descobriu que a mãe havia ido buscá-la de ônibus porque estava com um braço quebrado. "Ela tinha caído enquanto limpava a casa e ainda nem tinha ido ao hospital. Mesmo assim, foi atrás de mim. Isso ficou marcado para sempre." Apesar do impacto do reencontro, o vício falou mais alto. "O crack já tinha me dominado completamente. Acabei voltando para a Cracolândia."

Resgate e recaídas

Enquanto ela permanecia nas ruas, a mãe buscava ajuda em igrejas e entre amigos. Foi assim que conheceu a pastora Nice Garcia, que também havia vivido na Cracolândia e passou a acompanhar a família. "Eles iam até a minha casa, oravam por mim, conversavam comigo e muitas vezes me levavam para a igreja." Mesmo durante a dependência, Kathleen afirma que nunca roubou familiares para sustentar o vício. "Eu vendi tudo o que era meu. Vendi carro, roupa, relógio. Mas nunca peguei nada de dentro da casa da minha mãe. Ela sempre ensinou que a gente não podia pegar o que não era nosso." Depois de muitas insistências da família, ela aceitou ser internada em uma casa de recuperação. "Eu já estava passando muita vergonha. Chegava em casa completamente suja, destruída por dentro e por fora. Então falei: 'Tá bom. Vou aceitar me internar'."

Foi nesse período que a música voltou a ocupar um espaço importante na vida dela. Na casa de recuperação havia um violão que quase ninguém usava. "Era o que eu tinha para fazer. Peguei aquele violão e comecei a tocar os louvores que aprendia ali. Também buscava muito a Deus." Ao deixar a instituição, Kathleen voltou a ter recaídas, mas diz que já não sentia a mesma satisfação em usar drogas. "Eu voltei para a Cracolândia, mas já não era o mesmo sentimento. Deus foi tirando de mim, aos poucos, o desejo de continuar naquela vida." Ainda assim, ela passou um período dividida entre as ruas e a igreja. "Eu vivia igreja, Cracolândia, igreja, cemitério. Dormia muitas vezes dentro do cemitério usando crack. As pessoas me viam chegar em casa e me levavam para a igreja. Como eu era a única que tocava violão, acabavam me colocando para tocar os louvores."

A gravidez e o ponto de virada

Enquanto tentava interromper o ciclo de recaídas, Kathleen engravidou do filho, Heitor, hoje com 9 anos. Ela conta que passou toda a gestação usando crack e outras drogas. "Os nove meses da minha gravidez foram na Cracolândia. Fiz uso de crack e de outras substâncias com o Heitor na minha barriga. Mesmo assim, eu não conseguia parar." Apesar disso, diz que a maternidade começou a provocar uma mudança na forma como enxergava a própria vida. "Toda vez que eu me levantava depois de uma recaída, eu lembrava do Heitor. Eu pensava: 'Eu gasto todo o meu dinheiro nas ruas e, quando volto para casa, não levo nada para ele'." Ela, então, tentou estabelecer um limite. "Eu pensava: 'primeiro vou comprar as coisas dele. O que sobrar eu gasto com crack'. Mas dava tudo errado. Eu dormia, roubavam as compras, e eu chegava em casa do mesmo jeito." Para Kathleen, aquelas tentativas frustradas passaram a convencê-la de que não conseguiria abandonar as drogas sozinha. "Deus foi permitindo que eu tentasse fazer do meu jeito para que eu entendesse que, da minha forma, nunca daria certo."

Foi nesse período que viveu um dos momentos mais marcantes da trajetória. Kathleen conta que acordou deitada sobre uma caçamba de lixo na Cracolândia. "Quando parei para olhar ao meu redor, eu estava deitada numa caçamba de lixo. Tinha sacos de lixo, lodo, pombos. Naquele momento, comecei a lembrar de tudo o que eu já tinha sido. Lembrei da minha cama, da geladeira cheia, do banho quente, dos meus amigos, dos meus primos. E pensei: 'de tudo o que eu já fui um dia, hoje eu sou um lixo. Minha vida acabou aqui. Eu vou morrer aqui'."

O pagode gospel como missão de vida

Kathleen diz que um dia, sentada na Cracolândia, não conseguia se levantar quando orou para que alguém fosse buscá-la. "De repente eu comecei a ouvir o som do pagode e o canto: 'Ele não desiste de você. Ele se importa com você. Ele compreende seu caminhar. Nunca vi um amor tão grande assim'. Então, eu ouvi o pessoal entrando com samba na Cracolândia, o cavaco com pandeiro, e na mesma hora eu consegui me levantar e sair daquela calçada. Eu fui até eles naquele dia e eu fui resgatada". A cantora diz que faz 9 anos que não usa drogas e há 5 anos canta pagode gospel para compartilhar a própria história e incentivar outras pessoas que vivem a dependência química.

"Eu tenho o projeto Craco Help em que eu voltei na Cracolândia e biqueiras, mas com o objetivo de ajudar essas pessoas. Inclusive, eu encontrei pessoas que estavam desde a minha época, muitos que perderam os pés, as mãos, a visão por conta do crack. E disse que se eu consegui, eles também vão conseguir. É assim que quero seguir, ajudando". "Não desistam das vidas. A Cracolândia em si, o fluxo, não existe mais, mas existem vários pontos na cidade de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Existem os pontos de droga e a gente não pode desistir dessas pessoas. A gente não pode olhar mais para uma pessoa dependente química e falar para ela: 'esse aí não tem jeito'. Pode não ter jeito para nós, para a nossa força, mas pelo poder de Deus nada é impossível".