O Banco Central (BC) derrapou ao tentar explicar a decisão por meio da qual reduziu a taxa básica de juros de 14,50% para 14,25% ao ano. É verdade que essa era a aposta majoritária do mercado financeiro – 39 das 49 instituições consultadas pelo Broadcast Projeções esperavam um corte de 0,25 ponto porcentual na reunião desta semana –, mas muita coisa no Brasil e no exterior mudou desde o momento em que a autoridade monetária iniciou o ciclo de cortes da Selic, em março. Sob tais circunstâncias, explicações irrefutáveis eram obrigatórias, e as do BC, definitivamente, não convenceram.
Cenário externo incerto
Ninguém em sã consciência pode assegurar que a guerra no Oriente Médio realmente acabou. O cumprimento dos termos do acordo, anunciados no domingo passado, permanece nebuloso. De certo, Donald Trump continua imprevisível e o Irã saiu mais forte do que entrou, provando ter plena capacidade de fechar e reabrir o Estreito de Ormuz quando quiser. O preço do barril de petróleo até recuou um pouco, mas as cotações devem continuar voláteis.
Pressões inflacionárias domésticas
No cenário doméstico, a economia está mais aquecida, o mercado de trabalho continua apertado e as expectativas para a inflação deste ano e de 2027 permaneceram acima da meta de 3% e subiram, respectivamente, para 5,3% e 4,10%, segundo o Boletim Focus. Para o quarto trimestre do ano que vem, considerado o “horizonte relevante” a guiar as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), a projeção subiu de 3,5% em abril para 3,7% nesta semana.
Seguramente, há mais chances de a inflação subir do que de desacelerar nos próximos meses. Já havia preocupações com o setor de serviços, o câmbio e as expectativas para o IPCA, mas o BC incluiu os estímulos à demanda agregada como um quarto item na lista de riscos. Tradução: a dinheirama que o governo Lula tem despejado no mercado por meio de subvenções a combustíveis e crédito subsidiado para obter mais votos na eleição de outubro. Do lado oposto, a desaceleração da economia, as incertezas quanto aos choques de comércio e petróleo e a redução dos preços das commodities poderiam reduzir a inflação.
Balanço de riscos desfavorável
Numericamente, portanto, o placar do balanço de riscos está em 4 a 3, o que não justificaria uma redução dos juros. O cético Banco Central, no entanto, escolheu ter fé no futuro. A autoridade monetária reconheceu que as projeções de inflação apresentam “distanciamento adicional” em relação à meta de 3% no fim de 2027, mas preferiu acreditar que elas vão magicamente despencar no primeiro trimestre de 2028, a ponto de ficarem abaixo da meta de 3%.
Pareceu pura enrolação para não contrariar o que havia sinalizado que faria há três meses, quando o ciclo de corte de juros e a guerra no Oriente Médio mal haviam começado. Não satisfeito em menosprezar tudo o que ocorreu depois disso, o Banco Central torturou a língua portuguesa com um comunicado mal redigido e essencialmente contraditório. Ainda que essa projeção de inflação abaixo da meta se concretizasse, o que parece bastante improvável, o intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual serve justamente para acomodar resultados para cima e para baixo.
Comparação internacional
O mundo segue trajetória oposta. Nos Estados Unidos, sob a direção de Kevin Warsh, indicado por Trump, o Federal Reserve manteve os juros no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano, mas sinalizou elevação ainda neste ano. Na Europa e no Japão, as taxas já começaram a subir.
Após uma decisão muito mal explicada, o BC ao menos teve a prudência de deixar em aberto o que fará na próxima reunião, no início de agosto. O mercado vai aguardar a divulgação da ata e do Relatório de Política Monetária na próxima semana para se ajustar, mas será difícil encontrar números e palavras que justifiquem a decisão de anteontem.
Interpretações e riscos
Numa interpretação benevolente, o BC aproveitou a trégua entre Estados Unidos e Irã para ganhar tempo e executar o plano que anunciou em março. Na pior das hipóteses, fez um malabarismo para não atrapalhar os planos de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Num terreno pantanoso e de tantas incertezas, o BC deveria ter se apegado aos dados de que já dispõe e encurtado o horizonte, em vez de arriscar sua credibilidade.



