A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou, nesta quinta-feira (9), um pedido de desculpas à sociedade brasileira por ter adquirido, no século 20, cadáveres de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, no Campo das Vertentes. Cerca de 60 mil pessoas morreram no hospital, fundado em 1903. Muitas delas foram enterradas como indigentes ou tiveram os corpos enviados para faculdades de medicina, como a da UFMG, para o ensino de anatomia.
A reitora destacou que o episódio ficou conhecido como 'holocausto brasileiro' porque as condições dos manicômios se assemelhavam às dos campos de concentração nazistas. Os pacientes eram internados compulsoriamente e expostos a situações desumanas. Apenas 30% deles tinham diagnóstico de doença mental – homossexuais, militantes políticos e mulheres que haviam perdido a virgindade antes do casamento também eram mandados para Barbacena.
Um levantamento publicado no livro 'Holocausto Brasileiro', da jornalista Daniela Arbex, aponta que 1.853 cadáveres de pacientes do hospital foram comercializados entre 1969 e 1981 para instituições de ensino médico. Desde 1999, a Faculdade de Medicina da UFMG mantém um programa de doação voluntária e consentida de corpos para o ensino de anatomia.
Além do pedido de desculpas, a UFMG se comprometeu com o Ministério Público Federal (MPF) a adotar outras medidas de reparação. No ano passado, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão instaurou um inquérito civil público para apurar responsabilidades relacionadas às internações compulsórias no hospital colônia.
Segundo o MPF, a universidade ainda deve criar espaços de memória na Faculdade de Medicina e incluir os temas das violações dos direitos humanos na saúde mental e da compra de corpos no escopo das disciplinas ministradas pelo Departamento de Anatomia e Imagem. Além disso, o livro de registro de cadáveres, onde constam os nomes e a origem das pessoas provenientes de Barbacena, deve passar por um processo de restauração.



