A expectativa dominante entre economistas e operadores do mercado financeiro é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) eleve a taxa básica de juros, a Selic, para 15% ao ano na próxima reunião, marcada para os dias 2 e 3 de agosto. A projeção foi atualizada após a divulgação do IPCA-15 de julho, que acelerou para 0,45% no mês, acumulando alta de 5,12% nos últimos 12 meses, acima do teto da meta de 4,5%.
Pressão inflacionária justifica aperto monetário
De acordo com levantamento realizado pela XP Investimentos com 110 instituições financeiras, 78% esperam um aumento de 1 ponto percentual na Selic, levando a taxa dos atuais 14% para 15% ao ano. “A inflação persistente, especialmente nos setores de alimentos e serviços, não dá margem para o Copom interromper o ciclo de aperto agora”, afirmou a economista-chefe do Banco ABC Brasil, Mariana Oliveira. Ela destacou que a recente alta do dólar, que ultrapassou R$ 5,80, também contribui para o repasse de custos importados.
Impactos na economia real
Endividamento das famílias – Com a Selic mais alta, o crédito fica mais caro para consumidores e empresas. A taxa média de juros do rotativo do cartão de crédito, que já está em 420% ao ano, pode subir ainda mais. Segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), o volume de inadimplência entre pessoas físicas cresceu 3,2% no segundo trimestre, atingindo o maior patamar desde 2020.
Investimentos e poupança – Para o investidor, a alta da Selic torna a renda fixa mais atrativa. O CDI, que acompanha a taxa básica, deve render 15% ao ano, enquanto a poupança, limitada a 0,5% ao mês, continua perdendo para a inflação. “Isso reforça a migração de recursos para títulos públicos e privados indexados ao CDI”, explicou o gestor de fundos da SulAmérica Investimentos, Paulo Guedes.
Reação do governo e projeções futuras
O Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Política Econômica, divulgou nota técnica na qual reconhece que a política monetária contracionista é necessária para conter as expectativas inflacionárias. No entanto, o documento alerta para os riscos de desaceleração econômica. A projeção do mercado para o PIB de 2026 foi revista de 1,8% para 1,5%, segundo o boletim Focus do Banco Central.
A maioria dos analistas prevê que a Selic encerre o ano em 15% e que os primeiros cortes ocorram apenas no primeiro trimestre de 2027. Contudo, a decisão final dependerá do comportamento da inflação de serviços e do câmbio nas próximas semanas.
Contexto internacional
O aperto monetário no Brasil ocorre em meio a um cenário global de juros elevados. O Federal Reserve dos EUA manteve a taxa básica entre 5,25% e 5,5% na última reunião, sinalizando que os cortes podem demorar. Isso mantém o dólar forte e pressiona moedas emergentes, como o real. “A diferenciação do Brasil com juros reais positivos atrai capital estrangeiro, mas o efeito colateral é o encarecimento do crédito doméstico”, avaliou a analista de mercados globais da XP, Camila Silva.
Em resumo, a esperada alta da Selic para 15% reflete a luta do Banco Central contra a inflação, mas traz custos para a atividade econômica e o bolso do consumidor. O mercado acompanhará atentamente o comunicado do Copom para entender os próximos passos da política monetária.



