Os ativos brasileiros operam em forte alta nesta quinta-feira (2), impulsionados pela divulgação do payroll americano, que mostrou criação de empregos nos Estados Unidos bem abaixo do esperado em junho. O dado reduziu as apostas de que o Federal Reserve (Fed) precise elevar os juros no curto prazo, tornando mercados emergentes como o Brasil mais atrativos para investidores globais.
Ibovespa e dólar reagem positivamente
Às 10h13 (horário de Brasília), o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, registrava alta de 1,02%, aos 173.439 pontos. No mercado cambial, o dólar comercial caía 0,51%, cotado a R$ 5,188. As taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DIs) também despencavam, acompanhando o movimento dos Treasuries americanos. O DI para janeiro de 2028 recuava para 14,065%, queda de 6 pontos-base ante o ajuste anterior de 14,123%. Na ponta longa, o DI para janeiro de 2035 estava em 14,345%, com baixa de 2 pontos-base.
O rendimento do Treasury de dois anos, que reflete as expectativas para as taxas de curto prazo, caía 4 pontos-base, para 4,129%.
Payroll fraco e desemprego abaixo do esperado
O relatório de emprego do Departamento do Trabalho dos EUA informou que a economia americana gerou apenas 57 mil postos de trabalho em junho, muito abaixo dos 110 mil projetados por economistas consultados pela Reuters. A taxa de desemprego, no entanto, ficou em 4,2%, contra expectativa de 4,3%. Em paralelo, os pedidos de auxílio-desemprego somaram 215 mil na semana passada, também abaixo dos 220 mil esperados.
Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o payroll reforça a percepção de que o mercado de trabalho americano começa a perder fôlego, o que reduz a pressão para uma política monetária mais restritiva. “Na prática, o dado mantém o cenário de cautela, com decisões cada vez mais dependentes dos próximos indicadores de inflação e atividade, favorecendo uma acomodação dos juros dos Treasuries e um ambiente mais construtivo para ativos de risco, desde que a desaceleração econômica permaneça gradual e sem sinais de deterioração mais intensa”, afirma.
Impacto nas expectativas de juros no Brasil
Nas últimas sessões, investidores vêm elevando as apostas de que o Banco Central cortará a Selic em 25 pontos-base em agosto. Dados da B3 indicavam, na última terça-feira, 70% de chance de um corte de 25 pontos-base, contra 28% de manutenção da taxa em 14,25%. Uma semana antes, em 23 de junho, as probabilidades eram de 35% para corte e 63% para manutenção.
Edgar Araujo, CEO da Azumi Investimentos, recomenda parcimônia. “Para o Federal Reserve, o dado aumenta a pressão por uma postura menos dura, mas ainda não resolve o dilema dos juros. Os salários seguem avançando, com alta de 0,3% no mês e 3,5% em 12 meses, o que mantém atenção sobre a inflação de serviços”, destaca. “Por isso, o relatório reforça um cenário de cautela: o mercado de trabalho já mostra fissuras, mas ainda não enfraqueceu o bastante para garantir uma virada clara na política monetária.”
Dólar mais fraco e alívio para emergentes
Leonel Oliveira Matos, analista de Inteligência de Mercados da StoneX, aponta que o mercado não deixou de precificar uma nova alta de juros, mas passou a enxergar menos urgência para o Fed promover esse ajuste no curto prazo, adiando as expectativas para os próximos meses. Esse movimento reduz a atratividade dos Treasuries, dificulta a entrada de capital nos EUA, enfraquece o dólar globalmente e exerce pressão baixista sobre a taxa de câmbio no Brasil.
Vinicius Flores, analista de investimentos e sócio da Stratton Capital, complementa que os impactos imediatos são um dólar mais fraco e um ambiente positivo para a bolsa americana, já que com menor probabilidade de alta de juros, há mais espaço para as ações subirem. Para o Brasil, o alívio externo permite que o Banco Central mantenha a trajetória de cortes na Selic, beneficiando a bolsa e os títulos de renda fixa.



