O rendimento dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos com vencimento em 10 anos disparou para 4,8% nesta quarta-feira (30), atingindo o maior nível desde 2007, após a decisão do Federal Reserve (Fed) de elevar a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, para a faixa de 5,25% a 5,50%. O movimento surpreendeu investidores que esperavam um ajuste mais moderado e gerou forte aversão ao risco nos mercados globais.
Decisão do Fed e impacto imediato
O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) anunciou o aumento de 0,5 ponto percentual, contrariando expectativas de uma alta de 0,25 ponto. Em comunicado, a autoridade monetária destacou que a inflação permanece elevada, com o índice de preços ao consumidor (CPI) ainda acima de 4%, e que são necessárias medidas mais agressivas para conter a pressão inflacionária. O presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou em coletiva de imprensa: “Estamos comprometidos em trazer a inflação de volta à meta de 2%, e isso pode exigir que os juros permaneçam em patamares restritivos por mais tempo.”
Logo após o anúncio, os rendimentos dos títulos de 10 anos saltaram de 4,3% para 4,8%, um movimento de 50 pontos-base em um único dia – o maior desde 2020. Os títulos de 30 anos também subiram, chegando a 4,9%. O índice S&P 500 caiu 2,5%, enquanto o dólar se fortaleceu frente a uma cesta de moedas.
Reação dos mercados e perspectivas
Analistas apontam que a alta dos juros longos reflete o temor de que a economia americana possa entrar em recessão se o Fed mantiver uma postura hawkish por muito tempo. “O mercado está reprecificando o risco de que o aperto monetário seja excessivo, como alertam alguns economistas. A curva de juros invertida, com os curtos acima dos longos, já sinaliza recessão, mas a disparada de hoje reforça esse cenário”, disse Maria Silva, economista-chefe do Banco ABC. Ela acrescentou que o rendimento de 4,8% pode atrair investidores estrangeiros, mas pressiona ainda mais as economias emergentes.
No Brasil, o impacto foi sentido com a alta do dólar, que ultrapassou R$ 5,40, e a queda da Bolsa de Valores. O Tesouro americano é considerado o ativo mais seguro do mundo, e o aumento de sua rentabilidade provoca fuga de capital de países com maior risco. A expectativa é que o Fed mantenha a taxa elevada nas próximas reuniões, com possibilidade de novo aumento em setembro.
Contexto global e implicações
O movimento dos juros longos nos EUA ocorre em meio a incertezas sobre o crescimento global, com a China desacelerando e a Europa ainda lidando com inflação persistente. A decisão do Fed também influencia outros bancos centrais, que podem ser forçados a elevar suas taxas para evitar a desvalorização de suas moedas. O Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra já sinalizaram que podem acompanhar o aperto.
A alta dos rendimentos dos títulos de 10 anos encarece o crédito para consumidores e empresas, impactando o mercado imobiliário e os investimentos produtivos. Economistas projetam que o PIB americano pode crescer apenas 1,5% em 2026, ante 2,3% previstos antes da decisão. O Federal Reserve, no entanto, afirma que está focado no combate à inflação e que os dados econômicos ainda mostram resiliência no mercado de trabalho, com taxa de desemprego em 3,6%.



