Ibovespa cai 7,2% em maio e gestoras veem riscos fiscais e eleitorais no Brasil
Ibovespa cai 7,2% em maio; gestoras veem riscos fiscais e eleitorais

O Ibovespa registrou queda de 7,2% em maio, enquanto o real desvalorizou 1,6% frente ao dólar. Em contraste, o S&P 500 avançou 5,1% no mesmo período. Para algumas das principais gestoras do país, essa divergência representa apenas o início de um movimento mais amplo.

Três vetores de risco simultâneos

Mesmo que o Estreito de Ormuz reabra em breve, a Itaú Asset avalia, em carta mensal dos fundos da família Artax, que não se deve esperar um retorno às condições pré-guerra. O consenso entre diversas gestoras é que os ativos brasileiros enfrentam três vetores de risco simultâneos: inflação persistente, cenário fiscal delicado e incertezas sobre o ciclo de cortes da Selic.

Inflação pressionada

A Genoa Capital, em carta a clientes, afirma que o repasse da energia ainda não chegou de forma relevante ao IPCA e que a pressão corrente reflete sobretudo demanda, com núcleos de serviços rodando entre 5,5% e 6,0% em termos anualizados. A gestora projeta IPCA de 5,5% em 2026 e 5,0% em 2027, e não descarta uma retomada das altas de juros. A Itaú Asset aponta que a desinflação brasileira foi quase toda explicada por fatores externos, fragilizando o cenário prospectivo. A Adam Capital, que projetava IPCA próximo de 6% desde o fim de 2025, sustenta que a inflação subjacente já estava nesse patamar antes do conflito, excluídos choques positivos temporários.

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Um risco adicional vem da tramitação da redução da jornada de trabalho. Estudo do BTG Pactual mostra que 75,5% dos contratos formais no Brasil operam no limite constitucional de 44 horas semanais, de modo que qualquer redução desse teto produziria choque imediato de custos. O impacto estimado é de 6% a 10% sobre o custo de pessoal das empresas, dependendo do modelo adotado.

Cenário fiscal e ciclo de juros

O terceiro vetor é o ciclo de cortes da Selic. Mesmo com reabertura do Estreito de Ormuz, a Itaú Asset descarta cortes de 0,50 ponto percentual e vê espaço total bastante limitado. A Genoa Capital defende a interrupção do ciclo, colocando a retomada de altas como possibilidade concreta. O contexto externo agrava a situação: a produção de petróleo no Golfo segue 15 milhões de barris por dia abaixo do nível pré-guerra, com o barril entre US$ 90 e US$ 100. A Legacy Capital estima que o preço poderia chegar a US$ 200 por barril em caso de esgotamento de estoques globais, tornando ainda mais remota qualquer discussão sobre cortes de juros no Brasil.

Boa parte do mercado defende que inflação e trajetória da Selic dialogam com a situação fiscal em ano eleitoral. A Tag Investimentos compilou as principais medidas em curso pelo governo, chegando a R$ 180 bilhões a R$ 295 bilhões de estímulo agregado, o que a gestora trata como o segundo maior ciclo populista da história recente, atrás apenas de Dilma I, que precedeu a recessão de 2015 e 2016. Economistas alertam que boa parte dos gastos corre fora do orçamento primário, via bancos públicos e fundos parafiscais, preservando formalmente o cumprimento da meta enquanto dificulta o trabalho do BC. A deterioração contínua da relação dívida/PIB é o que pode azedar a percepção dos investidores, resume a JGP.

Risco eleitoral mais concreto

Sobrepostos a esse cenário, os riscos eleitorais ganharam corpo em maio. O vazamento de conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro produziu uma ruptura nos mercados, defende a Legacy Capital. Desde então, a curva de juros DI parou de seguir as oscilações do petróleo e passou a precificar um ciclo de cortes mais modesto mesmo num cenário de resolução do conflito. O mercado começou a embutir o risco político doméstico de forma independente do cenário externo. A Neo aponta que o episódio revelou o potencial de reviravoltas nos próximos meses e que fatores locais devem pesar cada vez mais sobre os ativos brasileiros conforme a atenção se desloca da geopolítica para a disputa eleitoral.

Os cenários foram traçados com base no fechamento de 29 de maio, portanto antes do forte movimento de câmbio e juros do dia 5 de junho após a divulgação do dado de trabalho nos EUA, e que se manteve na terça-feira (9) — o que indica que o ajuste que as gestoras antecipavam ganhou ainda mais velocidade desde então.

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Posicionamento dos gestores

No lado das alocações, o consenso aponta na direção oposta aos ativos locais. A combinação de bolsa americana, com ênfase em tecnologia e semicondutores ligados ao ciclo de inteligência artificial, e dólar comprado é a aposta com maior sobreposição entre as gestoras, descritas pela Legacy Capital como posições que têm permitido que bolsa e dólar apresentem força simultaneamente. Petróleo comprado aparece como segunda aposta mais frequente, embora parte das gestoras tenha reduzido a exposição após a queda do barril na segunda metade de maio. No Brasil, o movimento é de cautela generalizada em renda variável local, com a Adam Capital na ponta mais extrema: vendida no Ibovespa.