Leopold Aschenbrenner, o jovem ex-pesquisador da OpenAI que ficou conhecido como o “Nostradamus da IA”, viu sua gestora de hedge fund, a Situational Awareness, ser forçada a vender bilhões de dólares em ações de tecnologia após uma sequência de chamadas de margem. A operação, que abalou os mercados globais, terminou com a compra dos ativos pela Citadel, do bilionário Ken Griffin, em um acordo fechado poucas horas antes da abertura do mercado na quinta-feira.
Uma ascensão meteórica e uma queda brutal
Criada há cerca de dois anos, a Situational Awareness chegou a administrar US$ 45 bilhões no início de julho. Em poucas semanas, esse número despencou para cerca de US$ 10 bilhões, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. O nome do fundo é uma referência ao ensaio publicado por Aschenbrenner em 2024 sobre o futuro da inteligência artificial, que viralizou e o transformou em uma celebridade do setor de tecnologia.
Na carta enviada aos investidores na noite de quinta-feira, Aschenbrenner reconheceu o mau momento: “Nós decepcionamos vocês neste mês.” O fundo acumulou perda de aproximadamente 67% em julho, mas ainda assim registra ganho de cerca de 80% no ano. A oscilação extrema significa que os cotistas podem ter ganhos ou perdas não realizados, dependendo do momento em que entraram no fundo.
Na curta trajetória como gestor de um grande fundo hedge, Aschenbrenner testemunhou tanto o entusiasmo extremo em torno da inteligência artificial quanto o receio de que ela represente apenas mais uma bolha tecnológica. Ele não tinha experiência prévia como investidor e, antes de criar o fundo, era conhecido principalmente por suas análises sobre o futuro da IA.
A intervenção de Ken Griffin
A virada aconteceu em menos de 24 horas, depois que a Situational Awareness passou a ser alvo de cobranças de garantias por parte dos bancos que financiavam suas operações alavancadas. Instituições como Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Bank of America haviam financiado a expansão do fundo, com empréstimos equivalentes a até quatro ou cinco vezes o capital, de acordo com fontes ouvidas pela Bloomberg News.
Quando as ações de tecnologia começaram a cair, os credores endureceram as condições e exigiram mais garantias. Aschenbrenner começou a liquidar posições para atender às chamadas de margem. Foi então que a Citadel fez contato. Após uma conversa entre Griffin e Aschenbrenner, e horas de negociação durante a madrugada, um acordo foi fechado pouco antes da abertura dos mercados, permitindo que a gestora mantivesse todas as suas participações em empresas privadas.
Reação no mercado e o papel dos short sellers
A liquidação forçada repercutiu nos mercados globais e deixou investidores em alerta. “A liquidação de quarta-feira foi completamente injustificada, para ser sincero. Tinha que haver alguma outra coisa por trás disso. Agora sabemos o que aconteceu”, disse Vuk Vukovic, diretor de investimentos da Oraclum Capital.
Na carta aos clientes, Aschenbrenner afirmou que assume total responsabilidade, mas atribuiu parte da queda de julho à atuação de vendedores a descoberto (short sellers), que teriam mirado as ações da carteira do fundo. Ele também prometeu administrar o portfólio de ações listadas sem alavancagem “enquanto assimilamos as lições desses acontecimentos” e escreveu: “Minha principal promessa a vocês é que não desperdiçaremos a oportunidade de aprender com esses acontecimentos.”
Por que o Barclays recusou financiamento
Antes do colapso, a Situational Awareness buscava ampliar suas fontes de financiamento. O fundo procurou o Barclays Plc para trabalhar com sua divisão de prime brokerage, mas o banco recusou a proposta por considerar excessiva a exposição da gestora a um único setor, segundo pessoas a par do assunto. Representantes do Barclays, do Goldman Sachs, do JPMorgan, do Bank of America e da Situational Awareness não quiseram comentar.
Milennium Management e Jane Street Group, que também investe na Situational Awareness, analisaram o portfólio. A gestora chegou a considerar a venda de parte de seus investimentos privados, incluindo uma participação de US$ 5 bilhões na Anthropic, enquanto buscava levantar capital.
História incomum de Aschenbrenner
Nascido na Alemanha, Aschenbrenner mudou-se para os Estados Unidos aos 15 anos para estudar na Universidade Columbia, onde fundou o núcleo do movimento do altruísmo eficaz. Formou-se em 2021 em Economia e Estatística Matemática como o primeiro da turma. Antes de entrar na OpenAI, em 2023, ajudou a administrar o FTX Future Fund, braço filantrópico do império de Sam Bankman-Fried, que desmoronou em um esquema bilionário de fraude.
Na OpenAI, trabalhou na equipe de Superalignment, mas foi demitido em 2024. A empresa afirmou que ele vazou informações confidenciais; ele sustenta que alertou a organização sobre a falta de interesse em impedir ataques de adversários estrangeiros. Depois disso, publicou o ensaio “Situational Awareness” e criou o fundo com o mesmo nome, recrutando jovens entusiastas de tecnologia, incluindo amigos da época de Columbia. Entre os primeiros investidores estavam Patrick e John Collison, fundadores da Stripe, além de Daniel Gross e Nat Friedman.
Casamento e futuro em meio à crise
Apesar da turbulência, Aschenbrenner deve se casar neste fim de semana com sua noiva, chefe de gabinete do CEO da Anthropic PBC, em um evento no vale de Carmel, na Califórnia. Em seus escritos, ele já refletiu sobre os riscos e o potencial da IA. Chegou a brincar que apostar tudo na Nvidia pode parecer uma excelente ideia hoje, “mas o peso da história é grande. Eu não faria essa escolha”. E ressaltou: “Reconhecer o poder da superinteligência também significa reconhecer seus perigos. Precisamos garantir que não estraguemos tudo.”



