Um estudo publicado na revista Science Advances por pesquisadores dos Estados Unidos propõe o uso de uma técnica de geoengenharia solar para enfraquecer eventos de El Niño antes que causem estragos. A ideia surgiu após os incêndios florestais 'Black Summer' na Austrália (2019-2020) lançarem tanta fumaça na atmosfera que alteraram o comportamento das nuvens sobre o Oceano Pacífico, contribuindo para a formação de uma La Niña prolongada entre 2020 e 2023.
Técnica de clareamento de nuvens marinhas
A técnica testada em simulações computacionais é chamada de clareamento de nuvens marinhas (MCB). Consiste em borrifar partículas de sal do mar na atmosfera para tornar as nuvens baixas mais brancas e refletivas, fazendo com que mais luz solar retorne ao espaço, resfriando o oceano. A equipe, liderada por Jessica Wan, pós-doutoranda na Universidade de Chicago, usou um modelo climático de última geração para simular a aplicação da técnica antes dos fortes El Niños de 1997-1998 e 2015-2016.
Resultados das simulações
Os resultados indicaram que a intervenção conseguiu enfraquecer a força desses eventos, desde que aplicada cedo o suficiente e por tempo suficiente. 'Uma das maiores preocupações sociais em torno da geoengenharia é o fato de que, se a usarmos para reduzir riscos climáticos de longo prazo, temos que aplicá-la continuamente, por tempo indefinido', explicou Jessica Wan. 'Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter alguns dos benefícios da geoengenharia sem precisar empregá-la indefinidamente.'
Katharine Ricke, professora da Scripps Oceanography e coautora do estudo, destacou que o experimento natural dos incêndios australianos deu credibilidade à pesquisa. 'Foi o avanço-chave para que isso se tornasse uma pergunta de pesquisa viável. Sem essa oportunidade de validação, acho que nossas descobertas não seriam tão confiáveis', afirmou.
Efeitos colaterais e cautela
Os pesquisadores também observaram um efeito colateral: nas simulações mais bem-sucedidas, a La Niña seguinte tendia a chegar mais cedo e, em alguns cenários, mais intensa. Apesar disso, Ricke considera a ideia promissora. 'É uma forma diferente de pensar a geoengenharia. Precisamos entender muito mais, mas, se existe uma maneira de usar isso, somada às demais ferramentas de redução de risco, para mitigar El Niños, por que não considerar?', questionou.
Especialistas independentes, como Carlos García-Soto, pesquisador do CSIC (Instituto Espanhol de Oceanografia), pedem prudência. 'O estudo é uma contribuição científica interessante porque explora uma possibilidade física por meio de simulação climática. No entanto, convém interpretar seus resultados com prudência. Modificar deliberadamente um sistema climático tão complexo quanto o El Niño exige um nível de evidência muito superior ao necessário para demonstrar que uma hipótese é fisicamente plausível', avaliou.
Impactos econômicos e próximos passos
Segundo os autores, eventos de El Niño de grande magnitude já custaram trilhões de dólares à economia global. O meteorologista Ernesto Rodríguez Camino, presidente da Associação Meteorológica Espanhola, vê o estudo como abertura de uma nova frente de pesquisa. 'É de se supor que este trabalho dará origem a muitos outros trabalhos que explorem formas de mitigar extremos meteorológicos e climáticos, origem de tantas perdas humanas e materiais', disse.
Os pesquisadores reforçam que o trabalho é uma prova de conceito, não um plano de ação. Nada foi testado no mundo real, e não há conhecimento de propostas para aplicar a técnica no El Niño que se forma em 2026.
O que é o El Niño e seus impactos no Brasil
O El Niño é um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, parte do ciclo ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras. No Brasil, os efeitos incluem aumento de chuvas no Sul, redução no Norte e Nordeste, maior irregularidade no Sudeste e Centro-Oeste, e ondas de calor mais frequentes. Com o aquecimento global, mesmo episódios moderados podem ter impactos mais fortes.



