O VOO e o marco de US$ 1 trilhão
Quem acompanha ETFs e o mercado financeiro em geral se deparou recentemente com a notícia de que o VOO, ETF do S&P500 gerido pela Vanguard, tornou-se o primeiro ETF a atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado. O que muitos talvez não saibam é que ele não foi o primeiro, nem mesmo o segundo ETF de S&P500 lançado, e ainda hoje não é o mais líquido.
História dos ETFs de S&P500
Mais de 15 anos separam o lançamento do VOO, em setembro de 2010, do lançamento do SPY, gerido pela State Street e primeiro ETF de S&P500 do mercado, lançado em janeiro de 1993. Uma década antes, em maio de 2000, foi lançado o IVV, então gerido pela Barclays Global Investors, hoje da Blackrock. A Vanguard, pioneira em fundos indexados e já um gigante do mercado, demorou a lançar seu ETF por inicialmente não acreditar que esse instrumento se alinhava à sua filosofia, já que alguns viam ETFs como instrumentos de trading, e não veículos de longo prazo.
O pioneiro sempre vence?
Quando o VOO foi lançado, o SPY e o IVV já contavam, respectivamente, com mais de US$ 70 bilhões e US$ 20 bilhões em patrimônio. A indústria de ETFs nos EUA tinha cerca de US$ 992 bilhões, ou pouco menos de 10% do mercado de fundos de investimento, segundo dados da Investment Company Institute. No fechamento de 2025, essa mesma indústria respondia por quase 35% do mercado americano, com US$ 13,4 trilhões, um crescimento de mais de 13 vezes em cerca de 15 anos.
Em termos de liquidez, o SPY negociava em 2010 cerca de US$ 16 bilhões por dia, mais do que o próprio VOO negocia hoje (média de US$ 4 bilhões em maio de 2026). O SPY é o ativo de bolsa mais líquido nos EUA e no mundo, porém desde 2025 é superado em patrimônio tanto pelo VOO quanto pelo IVV.
Apesar de ser uma fração do que é hoje, o mercado de ETFs americano à época do lançamento do VOO já era bem estabelecido, com instrumentos eficientes, líquidos e pulverizados. O que explica então o sucesso do VOO, que o levou a superar esses gigantes e se tornar o maior ETF do mercado em apenas 15 anos?
Busca por eficiência
Como empresa, a Vanguard se posiciona como uma gestora eficiente e de baixo custo. Com os ETFs, não foi diferente. O VOO foi lançado com uma taxa de administração de apenas 0,06%, menor do que os 0,0945% e 0,09% cobrados respectivamente por SPY e IVV naquele momento. Além de uma taxa menor, a estrutura do VOO — e do próprio IVV — é mais moderna que a estrutura de Unit Investment Trust do SPY, o que permitiu sucessivas reduções no custo destes ETFs até os 0,03% atuais cobrados por ambos.
Além disso, a estrutura do VOO permite ao ETF o reinvestimento dos proventos até que o ETF os repasse aos cotistas, o que melhora marginalmente sua aderência e retorno em relação ao SPY. Assim como outros produtos da Vanguard, o ETF também atua ativamente alugando as ações de sua carteira, o que gera renda adicional aos cotistas.
Essas diferenças fizeram com que o VOO acumulasse, até o fechamento de maio, uma rentabilidade de 586,4%, frente a 582,9% e 582,0% do IVV e do SPY nesse período. Ou seja, quem investiu US$ 1.000 no lançamento do VOO obteve cerca de US$ 44 a mais de retorno em relação a quem ficou no SPY.
A diferença pode parecer pequena diante da impressionante valorização do S&P500, mas foi suficiente para motivar milhares de investidores a adotar um ETF mais novo e menos líquido. Ainda hoje, o SPY mantém grande distância em termos de liquidez, tanto do ETF em si como das opções baseadas nele, porém VOO e IVV têm crescido seus patrimônios em ritmo mais acelerado. Isso motivou o lançamento do SPYM (antigo SPLG) pelo State Street, com custo de apenas 0,02% para os investidores.
Paralelo local
A história do VOO pode parecer distante da realidade brasileira, mas oferece pistas sobre o futuro do mercado local de ETFs. Assim como nos EUA, aqui também há grande concentração em poucos produtos. Se o VOO responde por cerca de 7% do patrimônio em ETFs, a realidade brasileira é ainda mais concentrada. Os 10 maiores ETFs locais respondem por mais de 50% do patrimônio total dos quase 200 ETFs existentes no fechamento de abril.
O BOVA11 sozinho, primeiro ETF de Ibovespa e maior ETF do mercado, tinha no fechamento de abril R$ 14 bilhões de patrimônio, cerca de 13% do patrimônio de toda a indústria. Em relação ao volume negociado em bolsa, essa concentração é ainda maior. No entanto, a penetração dos ETFs é ainda muito inferior à do mercado americano atual ou mesmo à de 2010, quando o VOO foi lançado. Mesmo tendo dobrado nos últimos 2 anos, hoje apenas 1% dos recursos alocados em fundos estão em ETFs.
Isso explica em grande parte o surgimento de vários novos produtos, muitas vezes com estratégias similares às dos maiores ETFs, porém com menor custo ou estruturas diferentes. Os próprios ETFs de Ibovespa são um exemplo: com 8 alternativas disponíveis, o BOVA11 segue sendo o mais conhecido, mas é apenas o quarto em custo e em rentabilidade acumulada nos últimos 36 meses.
A baixa penetração dos ETFs locais, tanto em termos de patrimônio como de quantidade de cotistas, abre a possibilidade de, nos próximos anos, vermos mudanças na concentração de patrimônio e no nome dos maiores ETFs. Talvez aquele que venha a ser o maior ETF daqui a 15 anos ainda nem tenha sido lançado. A dúvida é se o investidor brasileiro, assim como o americano, vai privilegiar a busca por eficiência ou se prender a quem foi lançado primeiro.



