Morgan Stanley vê bull market latino-americano em 'limbo' e aposta no Brasil
Morgan Stanley: bull market latino em limbo e aposta no Brasil

Otimismo com ressalvas: Morgan Stanley vê 'limbo' no rali latino-americano

O bull market das ações latino-americanas entrou em uma espécie de 'limbo', na avaliação do Morgan Stanley. Depois de uma forte valorização no início do ano, os mercados da região perderam impulso à medida que aumentaram as incertezas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed) e sobre o cenário global de crescimento. Ainda assim, o banco continua otimista com as bolsas latino-americanas e vê o Brasil como sua principal posição na região.

Ventos contrários desde maio: dependência do Fed

No relatório 'LatAm Bull Market Limbo: Looking for Wind, Celebrating Wins', os estrategistas Nikolaj Lippmann e Julia Nogueira argumentam que o vento que sustentava o rali latino-americano enfraqueceu desde maio. Para eles, a trajetória das ações da região continua fortemente dependente do ambiente externo, especialmente da política monetária americana, que segue sendo o principal fator para liquidez global, fluxo para mercados emergentes e apetite por risco.

O Morgan Stanley tem uma visão mais dovish (branda, sem tantas preocupações com inflação) que o mercado para os Estados Unidos e espera inflação mais baixa e nenhuma alta adicional de juros pelo Fed. Porém, a instituição alerta que mudanças na comunicação do banco central americano podem elevar a volatilidade dos mercados, reduzindo temporariamente o suporte que vinha favorecendo os ativos latino-americanos.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Foco em histórias locais e 'Primavera Andina'

Sem esse impulso externo, o foco dos investidores voltou-se para as histórias específicas de cada país. É nesse contexto que o banco desenvolve a tese da chamada 'Primavera Andina', baseada em mudanças políticas observadas em países como Argentina, Chile, Peru e Colômbia, que estariam migrando para agendas mais voltadas à disciplina fiscal, desregulamentação e incentivo ao investimento privado.

Segundo o Morgan Stanley, essa transformação política é um dos pilares que sustentam a visão positiva para a América Latina no longo prazo. O banco argumenta que a região também se beneficia de sua importância crescente no fornecimento de commodities, minerais críticos e energia para o mundo, especialmente em um ciclo global de investimentos ligados à inteligência artificial e infraestrutura tecnológica.

Brasil: riscos domésticos elevados, mas valuation atrativo

Dentro desse cenário regional, o Brasil ocupa uma posição peculiar. Embora o banco mantenha recomendação overweight para o mercado brasileiro, os estrategistas reconhecem que os riscos domésticos estão aumentando. O país enfrenta juros longos acima de 14%, dívida pública próxima de 90% do PIB e preocupações crescentes sobre a sustentabilidade fiscal.

Ao mesmo tempo, o Morgan Stanley considera que justamente esses desafios ajudam a explicar por que a bolsa brasileira negocia em níveis tão descontados. O mercado é negociado a cerca de 8,2 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses, com desconto relevante tanto em relação ao histórico quanto aos demais emergentes. Para os analistas, isso cria uma assimetria favorável para investidores dispostos a suportar a volatilidade.

Eleitoral e fiscal: o exemplo colombiano

Na visão de Lippmann e Julia, o Brasil representa hoje a principal história eleitoral da América Latina. As eleições de 2026 podem marcar uma mudança importante nas políticas fiscal, industrial e externa do país, com potencial para alterar significativamente a percepção de risco dos investidores.

O relatório usa a Colômbia como exemplo. Nos últimos meses, os rendimentos dos títulos públicos colombianos de dez anos caíram cerca de 250 pontos-base (2,5 pontos percentuais) em relação aos papéis brasileiros após o mercado passar a precificar uma mudança mais favorável na direção das políticas econômicas. Para o Morgan Stanley, isso mostra como a melhora da credibilidade pode reduzir o prêmio de risco mesmo antes de os resultados econômicos aparecerem.

A leitura é que o Brasil poderia seguir caminho semelhante caso o processo eleitoral resulte em expectativas de maior equilíbrio fiscal. Segundo cálculos da instituição, uma compressão parecida do prêmio de risco brasileiro poderia direcionar cerca de US$ 10 bilhões da renda fixa para a bolsa.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Desaceleração pode ser positiva

O banco também destaca que a desaceleração econômica brasileira não deve ser vista necessariamente de forma negativa. Para os estrategistas, um crescimento mais moderado, mas acompanhado de juros menores e fundamentos mais sustentáveis, seria mais favorável para as ações do que um modelo baseado em expansão fiscal e taxas elevadas.

Enquanto o bull market latino-americano busca um novo catalisador externo, o Morgan Stanley defende que o caso de investimento para o Brasil continua de pé justamente por combinar dois elementos raros: lucros corporativos resilientes — impulsionados por setores exportadores e de commodities — e avaliações bastante deprimidas. O desafio é que a materialização desse potencial dependerá de uma combinação entre um Fed menos restritivo e sinais mais claros de reequilíbrio fiscal doméstico.