IPCA acima do esperado, mas taxas do Tesouro IPCA+ caem; entenda
IPCA sobe, mas taxas do Tesouro IPCA+ caem; veja por quê

O IPCA de maio surpreendeu o mercado ao registrar alta de 0,58% no mês e acumular 4,72% em 12 meses, superando as projeções de 0,53% e 4,66%, respectivamente. Apesar disso, quem acessou o Tesouro Direto nesta sexta-feira (12) encontrou as taxas dos títulos atrelados à inflação em forte queda.

O Tesouro IPCA+ 2040, que havia fechado no dia anterior pagando IPCA + 7,51%, passou a operar a IPCA + 7,33% – uma redução de 0,18 ponto percentual em um único dia. Já o IPCA+ 2032 recuou de IPCA + 8,21% para IPCA + 8,11%, e os demais vencimentos apresentaram quedas entre 0,10 e 0,17 ponto. Por volta das 13h47, o site do Tesouro Direto oferecia apenas títulos atrelados à Selic, uma vez que as negociações de títulos com marcação a mercado são suspensas em momentos de alta volatilidade.

Afinal, por que as taxas caíram mesmo com inflação mais alta?

A explicação está na mecânica do próprio título. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, esclarece: “A taxa das NTN-Bs é juro real, não nominal. Quando o IPCA vem acima do esperado, o investidor que já está carregando o papel está protegido, pois a correção monetária do principal absorve automaticamente a inflação.” Segundo ele, a inflação alta não exige uma taxa maior de NTN-B; pelo contrário, aumenta a demanda pelo papel, já que ele funciona como proteção natural contra a inflação.

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Trevisan ressalta que o IPCA de maio não assustou o mercado. A surpresa foi pequena e concentrada em alimentos e energia elétrica, que subiu 3,67% com a bandeira amarela. “São itens que o mercado tende a tratar como choque de oferta, não como pressão de demanda que exija juros mais altos”, afirma.

Geopolítica no radar

“O que derruba mesmo as taxas de juros nos últimos dias foi o anúncio de Trump do fim da guerra com o Irã. Não tem nada 100% assinado ainda, mas esse foi o alívio”, diz Trevisan, citando que o contrato de DI para janeiro de 2031 recuou cerca de 4% em seis dias. Ele complementa: “O que estamos vendo é o alívio geopolítico das sanções da guerra no Oriente Médio, somado à queda do petróleo. É mais uma questão geopolítica do que um movimento técnico de mercado” – embora também aponte que o Tesouro reduziu a oferta de NTN-Bs no último leilão, o que ajuda a derrubar as taxas.

A queda de hoje, portanto, é a continuação de uma correção iniciada nesta semana. Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, lembra que a curva de juros vinha de um estresse que levou alguns vértices a superar 15% – acima até das projeções mais pessimistas para a Selic, de 14,5%. “Ontem tivemos uma correção acima de um ponto percentual em vários vértices da curva, e hoje ela cai mais 0,3, 0,4 ponto. Foi puramente uma correção da curva de juros”, diz. Para ele, o movimento é descolado do IPCA: “não existe uma relação próxima com a inflação de hoje”.

O economista e especialista em investimentos Danilo Coelho acrescenta o ingrediente do fluxo estrangeiro e um alerta. A redução das tensões entre Estados Unidos e Irã “fez com que o investidor gringo começasse a trazer um pouco mais de dinheiro para cá”, atraído pela segunda maior taxa de juros real do mundo. No entanto, o alívio pode ser passageiro: “o que vai mandar mesmo é a nossa capacidade de ajuste no fiscal. Quando o investidor estrangeiro olhar para cá, vai ver que a situação ainda não está resolvida”, afirma, citando a relação dívida/PIB próxima de 80%.

Hora de comprar Tesouro IPCA+?

Mesmo em queda, as taxas seguem em níveis historicamente raros, com o IPCA+ 2032 ainda pagando mais de 8% de juro real. “A última vez que vimos IPCA + 8% foi lá em 2008. Não é suportável para uma economia pagar um juro real de 8%; isso tem que cair no longo prazo”, diz Trevisan. Para ele, a leitura de que o estresse era geopolítico – e não doméstico – abre uma janela para os mais arrojados: “se essa questão geopolítica era o estopim de a taxa estar no máximo e a guerra acabou, agora é um bom momento de entrar num juro um pouco mais longo”. Para perfis conservadores, porém, a recomendação é ficar nas durations médias, “até no máximo 2030, 2032”.

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Belitardo é mais cético. Ele acredita que a correção pode ser passageira diante de um quadro que segue negativo para as NTN-Bs: oferta elevada de dívida pelo governo, falta de demanda institucional, já que “só pessoa física compra, e é uma demanda muito pequena”, e a incerteza eleitoral. “Como não temos nenhum cenário positivo para a NTN-B, devemos continuar com IPCA + 8% até o final de 2026, até termos maior clareza nas eleições”, projeta. Na visão da Hike, há alternativas mais atrativas dentro da própria renda fixa, como as debêntures incentivadas, isentas de imposto de renda, e fundos que operam a curva de juros americana.

Coelho fica no meio do caminho e vê um bom momento para ter inflação na carteira por conta da proteção. “O IPCA+ protege melhor contra o risco de cauda, que é a hiperinflação, enquanto o prefixado trava uma taxa fixa e deixa o investidor descoberto se isso ocorrer”, compara. Os prefixados, diz, “são muito melhores para quem já sabe operar a curva de juros, o investidor mais experiente que quer tomar um nível de risco maior”.