A inadimplência no crédito livre no Brasil avançou para 5,8% em maio, o maior patamar desde o início da série histórica do Banco Central, em 2011. O índice subiu 0,3 ponto percentual em relação a abril e 1,2 ponto na comparação anual. Dados da autoridade monetária mostram que o endividamento das famílias e as taxas de juros elevadas têm pressionado a capacidade de pagamento dos consumidores.
Cenário do crédito livre
O crédito livre, que inclui operações como cheque especial, cartão de crédito e empréstimos pessoais sem garantia, registrou crescimento de 4,2% na carteira ativa em 12 meses, totalizando R$ 2,3 trilhões. No entanto, a inadimplência acima de 90 dias atingiu 5,8%, contra 4,6% em maio de 2025. Segundo o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Carlos Eduardo de Oliveira, “o aumento reflete o aperto nas condições financeiras das famílias, com a inflação ainda elevada e o mercado de trabalho mostrando sinais de desaceleração”.
As operações com recursos livres representam cerca de 60% do total do crédito no país. O avanço da inadimplência levou os bancos a reduzirem a oferta de novas linhas sem garantia, com queda de 3,1% nas concessões em maio ante o mês anterior.
Empréstimos com garantia ganham espaço
Em contrapartida, os empréstimos com garantia — como crédito consignado, financiamento imobiliário e penhor — cresceram 22% em 12 meses, somando R$ 1,4 trilhão em maio. Essas operações já correspondem a 38% do total de crédito no país, ante 34% no mesmo período de 2025. O Banco Central aponta que a busca por garantias reais ou fidejussórias é uma resposta ao risco de calote, com taxas de juros médias 40% menores do que as do crédito livre.
“Os consumidores estão migrando para modalidades mais seguras, como o consignado, que tem desconto direto em folha, e o financiamento imobiliário, que oferece taxas fixas mais baixas”, explica Oliveira. O crédito consignado, em particular, cresceu 18% no período, puxado por aposentados e servidores públicos.
Impacto nas famílias e na economia
A combinação de inadimplência alta e restrição ao crédito livre tem efeitos diretos no consumo das famílias. O endividamento médio das famílias brasileiras chegou a 48,5% da renda anual, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC. Esse percentual é o maior desde 2020. Para o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, “a inadimplência elevada no crédito livre sinaliza que as famílias estão comprometendo parcela significativa da renda com dívidas, o que reduz o espaço para consumo e investimento”.
O BC projeta que a inadimplência total do sistema financeiro (crédito livre e direcionado) deve fechar 2026 em 4,2%, ante 3,8% em 2025. A expectativa é que os empréstimos com garantia continuem ganhando participação, podendo chegar a 42% da carteira total até o fim de 2027.
Reação do mercado financeiro
Os bancos têm ajustado suas estratégias de crédito. Dados do BC mostram que as provisões para devedores duvidosos aumentaram 12% no primeiro semestre, para R$ 98 bilhões. Instituições como Itaú Unibanco e Bradesco já anunciaram redução de limites de crédito rotativo e maior exigência de garantias para novas operações. O diretor de Riscos do Itaú, Marcos Lisboa, afirmou em teleconferência que “o cenário macroeconômico exige cautela, e estamos focados em linhas com menor risco, como crédito consignado e financiamento de veículos com alienação fiduciária”.
O movimento de migração para garantias também é observado nas fintechs. A Nubank, por exemplo, registrou crescimento de 35% em sua carteira de crédito com garantia, enquanto as operações sem garantia recuaram 2% no trimestre.
Perspectivas para o crédito no Brasil
Analistas do mercado projetam que a inadimplência no crédito livre pode atingir 6,2% até o fim de 2026, caso a Selic permaneça em dois dígitos. A taxa básica de juros está atualmente em 13,25% ao ano, após três altas consecutivas. O BC sinalizou que pode elevar a Selic para 13,75% na reunião de agosto, o que deve pressionar ainda mais as linhas de crédito sem garantia.
Por outro lado, o crédito direcionado, que inclui operações com taxas reguladas pelo governo, como crédito rural e habitacional, deve se beneficiar do cenário. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou em junho a ampliação do programa Minha Casa Minha Vida, com subsídios que devem injetar R$ 10 bilhões no mercado imobiliário. Isso deve impulsionar o financiamento imobiliário, que já cresceu 15% no primeiro semestre.
O BC reforça que a diversificação das modalidades de crédito é saudável para o sistema financeiro, mas alerta que o endividamento elevado das famílias exige monitoramento constante. “O crédito com garantia reduz o risco de calote, mas não elimina o risco de superendividamento”, conclui Oliveira.



