Dólar sobe 256% desde 2010 e corroi poder de compra do investidor brasileiro
Dólar sobe 256% e corroi poder de compra do investidor

Uma família que guardou R$ 10 mil em 2010 para uma viagem aos Estados Unidos viu seu poder de compra despencar: o valor, que equivalia a cerca de US$ 6.000 na época, hoje compra apenas US$ 1.950, com o dólar a R$ 5,13. Apesar de nenhum ativo ter quebrado e nenhuma decisão errada ter sido tomada, a família ficou 68% mais pobre em termos de moeda estrangeira, segundo análise da situação cambial.

Duas erosões simultâneas corroem o patrimônio

O investidor brasileiro é treinado para vigiar uma única variável: o IPCA, que mede a inflação doméstica. No entanto, o patrimônio sofre duas erosões simultâneas, em velocidades diferentes. Entre o fim de 2010 e o fim de 2025, o IPCA acumulou cerca de 132%, enquanto o dólar subiu aproximadamente 256%, de acordo com dados do mercado.

Quem olha apenas o IPCA mede uma cesta doméstica: arroz, aluguel, ônibus. Mas a cesta de quem tem patrimônio relevante é outra — educação no exterior, imóveis fora, tratamentos de saúde, exposição a empresas globais. Essa cesta é cotada em dólar, o que explica a perda de poder de compra internacional.

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Câmbio também pressiona a inflação doméstica

Há um segundo canal, menos visível, que amplifica o efeito: o repasse cambial (pass-through). No Relatório de Política Monetária de março, o Banco Central estima um coeficiente de 0,10 para o IPCA cheio em quatro trimestres. Isso significa que uma alta de 10% no dólar tende a somar 0,1 ponto percentual à inflação em um ano.

O número parece pequeno, mas a distribuição é desigual: para preços administrados, como energia e combustíveis, o coeficiente sobe a 0,18. Além disso, o repasse é assimétrico: depreciações se transmitem mais rápido e com mais força do que apreciações. O preço sobe fácil e desce devagar, criando um efeito cumulativo.

A consequência é incômoda para o investidor 100% doméstico: ele está duplamente exposto ao mesmo choque. Quando o dólar sobe, seu poder de compra internacional cai e a inflação que corrói o lado brasileiro da carteira sobe junto. Não há hedge; há amplificação do risco.

O que fica de fora da carteira doméstica

Diversificar costuma ser vendido como aposta em performance — “o S&P 500 rende mais”. Mas esse é o argumento mais fraco disponível, pois depende de o futuro repetir o passado. Existem dois argumentos melhores, e nenhum é sobre retorno.

O primeiro é estrutural: a moeda estrangeira tem correlação historicamente negativa com o risco brasileiro. Quando o cenário doméstico piora, o real se deprecia — exatamente quando a bolsa local cai. O dólar não é um ativo que sobe muito; é um ativo que sobe quando o resto da carteira desce. Isso tem um preço: houve janelas longas de real forte em que diversificar custou retorno.

O segundo é o custo de oportunidade. O Brasil respondeu por cerca de 2% do PIB global em 2025. Nos mercados acionários, a desproporção é maior: os Estados Unidos representam 63,5% do MSCI ACWI, índice que mede a bolsa mundial. O Brasil sequer aparece entre os cinco maiores pesos.

Não é só tamanho, é acesso. As dez maiores posições do ACWI concentram 25% do índice e são dominadas por Nvidia, Apple, Microsoft, Amazon e Alphabet. A revolução de inteligência artificial em curso — a maior realocação de capital produtivo desde a internet — está sendo capitalizada quase inteiramente fora da B3. O investidor 100% doméstico não está apenas concentrado em risco; está ausente da fronteira tecnológica.

Offshore: o que mudou com a lei

É preciso desfazer um mal-entendido, porque a regra mudou. Durante anos, estruturas offshore foram vendidas na chave da economia tributária. A Lei Complementar 227, sancionada em janeiro de 2026, encerrou a ambiguidade: o ITCMD passa a alcançar expressamente bens no exterior, incluindo offshores e trusts com beneficiários residentes no Brasil.

O que permanece — e ficou mais valioso — é outra coisa: organização e liquidez sucessória. Um inventário judicial no Brasil leva tipicamente de dois a cinco anos, com os bens bloqueados. Herdeiros enfrentam falta de caixa justamente quando precisam pagar ITCMD, honorários e custas, que somados costumam consumir entre 6% e 15% do patrimônio. Não é raro que a família venda ativos em condição desfavorável apenas para honrar o próprio espólio.

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Uma estrutura internacional bem desenhada não elimina o imposto, mas pode separar a transmissão do bloqueio e dar liquidez à família enquanto o inventário corre. Esse é o novo papel do offshore: não mais economia tributária, mas planejamento sucessório e proteção patrimonial.

A conversa que falta sobre dolarização

Dolarizar patrimônio não é pessimismo com o Brasil. É reconhecer que um patrimônio construído em uma moeda, gasto em várias e transmitido sob regras que mudam precisa de mais de uma régua. Mas exposição internacional é decisão de alocação, e alocação não é neutra em relação a quem a recomenda.

As duas perguntas essenciais são: contra o que essa carteira me protege? E quanto custa, exatamente, quem me disse para montá-la assim? A segunda é mais difícil de fazer, mas também é a única cuja resposta está inteiramente sob o controle do investidor.