Uma perda de R$ 35 mil em operações de day trade com índice não foi suficiente para comprometer o resultado mensal de Fernando Beto. Graças aos ganhos obtidos em swing trade e opções, o período encerrou no positivo. O caso ilustra como a diversificação de estratégias e o controle da alavancagem podem transformar a gestão de riscos no mercado financeiro.
Prejuízo sem ruptura
A perda de R$ 35 mil ocorreu exclusivamente no day trade com índice. No entanto, esse valor isolado não representava o desempenho de todo o capital destinado ao mercado. Como Beto também mantinha posições em outros horizontes e instrumentos, os ganhos obtidos no swing trade e nas opções superaram o prejuízo intradiário. “Só que eu operei no swing e opções e eu fiquei positivo”, revela.
Além de diversificar as estratégias, Beto afirma trabalhar com exposição inferior ao limite permitido pela margem. Em períodos políticos e de maior volatilidade, essa escolha amplia o espaço para conduzir posições e evita que oscilações normais forcem saídas precipitadas. Consequentemente, também reduz a pressão por ganhos imediatos. “É um ano volátil, é um ano bom para quem sabe trabalhar desalavancado. É um ano muito bom”, avalia.
Quando a volatilidade aumenta, ele também amplia a distância entre as entradas, mesmo que isso reduza o ganho caso o mercado retome rapidamente o comportamento anterior. A prioridade, assim, é preservar o capital enquanto avalia o novo cenário. “Então, se era para pegar lá tipo R$ 1.000, R$ 1.500, peguei lá R$ 500 só. Está tudo certo”, salienta.
Mentalidade de empresário
A capacidade de conviver com resultados variáveis começou a ser construída antes do day trade. Ao comprar um auto center, Beto investiu R$ 70 mil e continuou aportando recursos durante seis meses para pagar aluguel, funcionários e outras despesas. No mercado, em contraste, depositava valores menores e esperava retornos desproporcionais, sem considerar o tempo necessário para desenvolver uma atividade consistente.
Ao reconhecer a incoerência, o trader passou a relacionar capital, risco e expectativa de retorno. Em vez de buscar multiplicações rápidas, decidiu tratar a conta como o patrimônio de uma empresa. A mudança também reduziu a pressão sobre cada operação. “Comecei a olhar pro todo como de fato um empreendimento e aí sim as coisas começaram a funcionar”, afirma.
Nesse novo modelo, uma conta de R$ 20 mil deveria produzir, em média, entre 3% e 5% ao mês. Embora outros operadores apontassem a possibilidade de retornos superiores, Beto preferiu seguir uma trajetória que considerava sustentável. Além disso, deixou de esperar que contas pequenas pagassem despesas incompatíveis com seu tamanho. “Você pode começar com R$ 300 na corretora, ela permite, mas você vai fazer salário com isso? Não”, destaca.
O ganho virou perda
Antes de alcançar essa visão, Beto também atravessou a fase de euforia comum a muitos iniciantes. Enquanto administrava o auto center e buscava outra fonte de receita, começou a pesquisar investimentos, comprou ações pensando no médio e longo prazo e encontrou o day trade. A primeira sequência positiva, contudo, alimentou uma percepção distorcida sobre sua capacidade. “No primeiro ano apanhei muito porque eu achei que eu era o cara”, conta.
Naquele período, os R$ 300 iniciais viraram R$ 2,7 mil em oito pregões. O avanço de nove vezes sobre o valor de partida fez o trader projetar quanto poderia ganhar em um mês ou acumular em alguns anos. Entretanto, o mercado interrompeu a euforia no pregão seguinte. “E aí no nono dia aconteceu o quê? Em um único dia foi oito dias para ganhar e um dia para perder”, recorda.
Depois do prejuízo, Beto percebeu a distância entre ganhar ocasionalmente e repetir resultados. Por isso, passou a estudar diferentes técnicas, enfrentou novas ilusões e procurou um operacional que pudesse executar com regularidade. O processo levou aproximadamente dois anos e, somente após sustentar o desempenho por mais um ano, ele vendeu o auto center para se dedicar ao mercado. “Dois anos depois, de fato, comecei a ter uma consistência”, relata.
Mercado como profissão
Mesmo depois de desenvolver um operacional, o amadurecimento ainda dependia de uma mudança comportamental. Beto conta que, após alcançar o resultado estipulado pela manhã, continuava operando para sentir que estava trabalhando. Em casa, chegava a vestir calça, camisa e bota antes de abrir a plataforma, reproduzindo a rotina física dos negócios anteriores. “Eu não conseguia parar de operar”, admite.
Além disso, a necessidade de acompanhar o mercado avançava sobre os fins de semana. A mudança começou quando sua esposa percebeu que ele ficava frustrado sem pregão e chamou atenção para o impacto na convivência familiar. A partir dali, Beto passou a evitar gráficos e grupos depois de encerrar as operações. “Eu percebi que de fato eu comecei a amadurecer e comecei a olhar pro mercado como uma profissão”, reconhece.
Essa separação permitiu ao trader aproveitar a liberdade que buscava quando entrou no day trade. Em vez de permanecer disponível para o mercado o tempo inteiro, ele estabeleceu limites entre trabalho e vida pessoal. Dessa forma, a consistência não surgiu da eliminação das perdas, mas da capacidade de reconhecer padrões, controlar riscos e aceitar mudanças. “É o autoconhecimento. Não adianta. Se você não se conhecer, não adianta”, conclui.



