Aluguéis no Rio retornam a patamares do 'Rio Surreal' com valores de até R$ 23 mil
Aluguéis no Rio atingem até R$ 23 mil, como no 'Rio Surreal'

O aluguel de um imóvel de dois quartos e 65m² na Rua José Ortiz, no Méier, é oferecido por R$ 6.750. Já um apartamento de três quartos na Rua do Pinheiro, no Flamengo, está disponível em plataformas de compra, venda e locação por R$ 15.305. O cenário remete ao período que antecedeu a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, quando os valores elevados motivaram indignação popular e deram origem ao chamado “Rio Surreal”. Mais de dez anos depois, especialistas avaliam que a era dos custos exorbitantes retorna, agora impulsionada pela alta do aluguel residencial.

Preços que ultrapassam R$ 20 mil

Levantamento feito pelo EXTRA nas principais plataformas de locação aponta imóveis que ultrapassam R$ 20 mil em bairros turísticos e se aproximam de R$ 10 mil em regiões fora do eixo de alto padrão. Uma das ofertas é a de um apartamento de 120m² e dois quartos na Rua Siqueira Campos, em Copacabana, por R$ 23 mil. Além de fatores como demanda aquecida, redução da oferta, juros elevados e mudança de comportamento das famílias, especialistas atribuem esse cenário à pressão da locação por curta temporada sobre o aluguel de longo prazo, aquele para morar.

O papel do Airbnb e da curta temporada

Segundo um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) publicado este mês, a plataforma Airbnb movimentou mais de R$ 12 bilhões na cidade do Rio em 2025, um aumento de 21% na comparação com o ano anterior. Só em maio, durante a mais recente edição do Todo Mundo no Rio, em Copacabana, anfitriões da plataforma receberam visitantes de cerca de 1.600 cidades e 64 países. Com cerca de 60 mil imóveis anunciados em diferentes sites, o Rio figura entre os maiores mercados de aluguel por temporada do mundo, segundo dados da AirDNA, plataforma de dados do setor.

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Professora do Departamento de Política Social da Uerj, Geisa Bordenave avalia que a locação por curta temporada exerce papel central na disparada dos aluguéis tradicionais. Ela explica que, enquanto cresce a oferta para aluguéis temporários, diminui a oferta de locação de longo prazo, e esse cenário, com menos opções para o morador, aumenta os valores. “O investidor vai buscar aquilo que é mais lucrativo. Se é mais rentável o aluguel por temporada, ele vai fazer essa opção. Isso significa que o imóvel vai deixar de ser destinado à moradia para dar lugar a essa lógica do aluguel por temporada”, observa Geisa. “Isso acompanha um processo que chamamos de ‘turistificação’ da cidade, quando a função de determinada região se torna receber turistas.”

Dados recentes de valorização

De acordo com o site Quinto Andar, nos últimos 12 meses, o aluguel subiu 14,6% (acima da média nacional de 9%) na cidade do Rio, atingindo R$ 52,50, em média. No período, o Centro foi o bairro com a maior valorização no custo da moradia — de 48,8% —, seguido por Del Castilho (48,5%) e Jardim Oceânico (27,1%). Só nos últimos três meses, o crescimento dos preços na região central foi de 11,6%.

Visão do setor imobiliário

Embora reconheça que em algumas regiões turísticas houve migração de parte dos imóveis para a locação por temporada, Leonardo Schneider, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Condomínios Residenciais e Comerciais (Secovi Rio), refuta a tese de que a locação de curto prazo exerça grande peso na balança dos aluguéis residenciais. “A locação de curta temporada não é o vilão que estão dizendo que é. Esse movimento contribuiu para pressionar os preços em determinados bairros, como Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca, mas está longe de ser o principal responsável pela alta observada em toda a cidade. No Méier e na Tijuca, por exemplo, o aluguel também subiu, e esses não são locais turísticos”, defende Leonardo. “O que está acontecendo é o seguinte: a locação está sendo considerada uma solução de moradia interessante, o mercado voltou a ficar aquecido e não tem oferta. Então, o preço sobe.”

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Falta de regulação e projetos de lei

Atualmente, a cidade não dispõe de uma lei específica sobre o aluguel por temporada. O tema está em discussão na Câmara Municipal, onde tramita projeto de lei 2.265/2026, protocolado em maio. Ele cria regras claras sobre privacidade dos hóspedes, tributação do setor e segurança em condomínios. O Airbnb afirmou que “não há evidências de que o aluguel por temporada seja responsável pelo aumento dos preços do aluguel tradicional”. A Booking.com disse que está “avaliando as implicações de possíveis novas leis e se adaptando”. Já a prefeitura destacou que “vem implementando medidas para estimular a produção de moradias voltadas à habitação permanente”.