O retorno do fenômeno El Niño, previsto para os próximos meses, acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. Especialistas apontam que o evento climático, caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico, pode trazer chuvas irregulares e secas em regiões produtoras, reforçando a necessidade de uma gestão de riscos mais robusta no campo.
Impactos do El Niño na safra brasileira
De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), há 70% de chance de que o El Niño se estabeleça entre julho e setembro de 2026. No Brasil, os efeitos variam conforme a região: no Sul, há tendência de excesso de chuvas, enquanto no Nordeste e Norte, a estiagem pode se intensificar. Já no Centro-Oeste, principal polo de grãos, o fenômeno pode causar atraso no plantio da soja e comprometer a produtividade do milho safrinha.
“O produtor rural precisa se preparar para cenários de estresse hídrico e excesso de precipitação. O seguro rural e o uso de cultivares mais resistentes são ferramentas essenciais”, afirma Carlos Alberto de Oliveira, pesquisador da Embrapa.
Estratégias de mitigação e seguridade
A gestão de riscos climáticos envolve desde a escolha de sementes adaptadas até a contratação de seguros agrícolas. Dados do Ministério da Agricultura mostram que, em 2025, apenas 15% das áreas cultivadas no Brasil contavam com cobertura securitária. Com o El Niño, a expectativa é de aumento na demanda por apólices.
“O seguro é um dos pilares para a sustentabilidade do agronegócio. Sem ele, o produtor fica exposto a perdas que podem inviabilizar a próxima safra”, destaca João Pedro Ribeiro, diretor de uma seguradora especializada no setor. Ele recomenda ainda a diversificação de culturas e o monitoramento constante de previsões meteorológicas.
Inovação tecnológica como aliada
Ferramentas de agricultura de precisão, como sensores de umidade do solo e imagens de satélite, ganham relevância. Startups do agro têm desenvolvido plataformas que integram dados climáticos históricos e em tempo real para auxiliar na tomada de decisão. “A tecnologia permite antecipar problemas e ajustar o manejo, reduzindo perdas”, explica Marina Lopes, CEO de uma agtech.
O governo também tem papel importante: linhas de crédito como o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) podem ser ampliadas para incentivar a adesão. Em 2025, o orçamento do PSR foi de R$ 1,2 bilhão, mas a demanda superou os recursos disponíveis.
Perspectivas para o setor
O El Niño não é novidade para o agro brasileiro, mas sua intensidade crescente, associada às mudanças climáticas, exige respostas mais estruturadas. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) já estima que a safra 2026/2027 possa sofrer impacto de 3% a 5% na produção total, dependendo da severidade do fenômeno.
Para o produtor, o momento é de planejamento. “Quem não se preparar, pode enfrentar dificuldades. O agro brasileiro é resiliente, mas não imune”, conclui Oliveira.



