O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil decidiu, em assembleia realizada nesta terça-feira (4), manter a greve nas Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade por tempo indeterminado. A paralisação, que começou à meia-noite, afeta diretamente cerca de 1 milhão de passageiros que utilizam essas linhas diariamente. A principal reivindicação é a garantia de emprego para os 4.700 funcionários da CPTM, que enfrentam um plano de demissão voluntária após a concessão das linhas para a empresa privada Trivia Trens.
Sindicato exige garantia por escrito
Em nota oficial, o sindicato afirmou que, apesar das tratativas realizadas ao longo do dia, o governo não apresentou uma garantia concreta por escrito sobre a manutenção dos empregos de todos os trabalhadores da CPTM. Essa é a principal reivindicação dos ferroviários durante todo o processo de negociação. Diante da ausência dessa garantia, a assembleia decidiu manter a greve e convocou uma nova Assembleia Geral para esta quarta-feira (5), às 17h, quando os trabalhadores avaliarão o andamento das negociações e os próximos encaminhamentos do movimento.
Governo critica movimento e nega demissões
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), usou as redes sociais para criticar a greve, classificando-a como uma “instrumentalização política para prejudicar o passageiro e o cidadão de bem”. Ele afirmou que o governo esteve e seguirá aberto ao diálogo, mas que a concessão foi feita para melhorar os serviços, eliminar problemas de via permanente, trazer trens novos e garantir estações mais acessíveis. Tarcísio também destacou que as linhas concedidas estão operando normalmente e que o governo não permitirá que o cidadão seja refém de pressões políticas.
Em nota, o governo estadual reforçou que a greve foi decretada mesmo após o compromisso de não fazer demissões durante o período de realocação dos funcionários. Segundo a nota, a paralisação ocorre por decisão unilateral do sindicato, com justificativas baseadas em desinformação. O governo também informou que, dos 4.648 funcionários empregados em junho de 2026, 2.171 seguem na Linha 10-Turquesa, 475 permanecem nas Linhas 11, 12 e 13, 450 estão no Metrô, 177 negociam realocação para a Artesp e outros órgãos, 522 estão à disposição para novas cessões e 853 atuam em áreas administrativas.
Impacto no trânsito e na mobilidade
A greve também afetou o trânsito na capital paulista. Com o rodízio de veículos suspenso, a cidade registrou pico de congestionamento de mais de 720 km pela manhã. A prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio para mitigar os efeitos da paralisação. Como alternativa, o governo estadual montou um plano de contingência com reforço de metrôs, trens privados e ônibus do sistema Paese. Apesar disso, as estações das linhas afetadas registraram superlotação e longas esperas.
Contexto da concessão
As Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram leiloadas pelo governo de São Paulo em março de 2025. O grupo Comporte Participações, dono da Trivia Trens e da Tic Trens, venceu a concessão com um compromisso de investimento de R$ 14,3 bilhões. A operação assistida começou em maio de 2026, com transferência gradual da CPTM para a concessionária. A Trivia Trens assumiu integralmente a operação em 21 de julho de 2026, mas, nos primeiros dias, houve falhas e atrasos, culminando em um incêndio em um vagão da Linha 12-Safira em 23 de julho. Após esses problemas, a Artesp determinou que a CPTM retomasse a operação por 90 dias, enquanto a concessionária realiza ajustes.
Os funcionários da CPTM pedem a reestatização das três linhas ou a manutenção dos empregos. Além disso, apoiam o Projeto de Lei nº 730/2025, de autoria do deputado Guilherme Cortez (PSOL), que prevê a absorção dos funcionários da estatal por órgãos da administração pública estadual após as concessões. O sindicato representa cerca de 4.700 empregados da CPTM, dos quais apenas 11% foram transferidos para a Trivia Trens.
Reestruturação da CPTM
A CPTM, que antes operava sete linhas, agora cuida apenas da Linha 10-Turquesa. A estatal está em processo de reestruturação, com um plano de demissão voluntária para parte dos funcionários. Segundo a Trivia Trens, a empresa conta com cerca de 2.400 colaboradores, dos quais 2.100 atuam diretamente na operação e manutenção das três linhas. Desses, aproximadamente 11% são egressos da CPTM, cerca de 230 empregados. Os demais 90% receberam mais de 1.300 horas de treinamento prático e teórico, conforme a empresa.
A CPTM afirmou em nota que os profissionais estão sendo realocados de acordo com necessidades técnicas do Estado, incluindo transferências para outras empresas e órgãos públicos, adesões ao Programa de Demissão Incentivada (PDI) e adequação temporária de vínculos contratuais. A companhia reiterou seu compromisso com a valorização dos profissionais e a transparência na transição.



