A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) divulgou resultados de testes que apontam que modelos da fabricante chinesa Shineray emitem poluentes em níveis que superam em até 30 vezes os limites estabelecidos pela legislação brasileira. O estudo foi realizado em parceria com o Instituto Mauá de Tecnologia e analisou 12 modelos de motocicletas de diferentes marcas vendidas no país.
Resultados dos testes
De acordo com a Abraciclo, as motos da Shineray apresentaram emissões de monóxido de carbono (CO) e hidrocarbonetos (HC) muito acima do permitido. Em um dos modelos, a concentração de CO chegou a 30 vezes o limite máximo previsto pelo Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). Os testes foram realizados em condições controladas de laboratório, seguindo protocolos internacionais.
“Os números são alarmantes e mostram que esses veículos representam um risco à saúde da população e ao meio ambiente”, afirmou Marcos Fermanian, presidente da Abraciclo. “É inaceitável que motocicletas sejam vendidas no Brasil sem atender aos padrões mínimos de emissão.”
Impacto ambiental e na saúde
As emissões excessivas contribuem significativamente para a poluição do ar, especialmente em grandes centros urbanos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a poluição do ar cause milhões de mortes prematuras anualmente. No Brasil, as motocicletas representam uma parcela crescente da frota, e modelos com emissões elevadas agravam o problema.
“A população exposta a esses poluentes tem maior risco de desenvolver doenças respiratórias e cardiovasculares”, destacou o pneumologista Paulo Saldiva, professor da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Valor.
Posição da Shineray
Procurada, a Shineray informou que não teve acesso aos testes e que seus produtos seguem as normas técnicas exigidas pelos órgãos reguladores brasileiros. A empresa afirmou que está à disposição para esclarecimentos e que preza pela qualidade e sustentabilidade de seus veículos.
No entanto, a Abraciclo ressalta que os testes foram conduzidos de forma independente e que os resultados são robustos. A associação encaminhará os dados ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para as devidas providências.
Contexto regulatório
O Proconve estabelece limites progressivos de emissões para veículos novos no Brasil. A fase atual, Proconve L7, exige reduções significativas de poluentes. A Abraciclo defende que a fiscalização seja intensificada para coibir a venda de modelos irregulares.
“Precisamos de mecanismos mais rigorosos de certificação e monitoramento para garantir que todos os veículos comercializados no país estejam em conformidade”, acrescentou Fermanian.
A Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) também manifestou preocupação. “A tecnologia para controle de emissões já é madura e acessível. Não há justificativa para níveis tão elevados”, disse o engenheiro José Ricardo, consultor da AEA.
Próximos passos
A Abraciclo pretende realizar novos testes e ampliar a amostra de modelos avaliados. A entidade também solicitará ao governo federal a revisão dos processos de homologação de veículos importados. Enquanto isso, consumidores que adquiriram motos Shineray podem buscar informações sobre possíveis irregularidades junto aos órgãos de defesa do consumidor.



