A gigante sul-coreana Posco Engenharia e Construção, que atuou na construção da siderúrgica do Pecém (CE), é acusada por credores de fraudar a própria falência para deixar o Brasil sem pagar dívidas que ultrapassam R$ 640 milhões. A Embaixada do Brasil em Seul realizou, em maio, as primeiras reuniões com o governo sul-coreano para tratar do caso, confirmou o Itamaraty nesta terça-feira (7). Os encontros ocorreram nos dias 26 e 27 de maio com autoridades dos Ministérios de Comércio, Indústria e Recursos e das Relações Exteriores da Coreia do Sul.
Itamaraty acompanha caso e novo embaixador terá prioridade
“O Brasil seguirá acompanhando o caso junto às autoridades sul-coreanas”, afirmou o Itamaraty. O assunto deve ser uma das prioridades do novo embaixador brasileiro na Coreia do Sul, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel, cujo nome foi aprovado pelo Senado em abril. Ele deve assumir o posto nas próximas semanas.
O presidente da Associação Internacional de Credores da Posco, o advogado Frederico Costa, disse que a dívida total pode chegar a R$ 1 bilhão. Ele espera que o tema seja tratado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a visita do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, ao Brasil em 27 de julho. “O ministro Mauro Vieira pediu para a Embaixada do Brasil na Coreia entrar em contato com a empresa, já que a Embaixada da Coreia aqui no Brasil não estava fazendo nada. Disse que era um caso de prioridade, inclusive eventualmente isso vai ser pauta da visita do presidente da Coreia aqui no Brasil”, afirmou Costa. Ele revelou ainda que o novo embaixador Fernando Pimentel já está ciente do imbróglio: “Já afirmou que esse vai ser o principal desafio dele nessa nova função como embaixador na Coreia”.
Justiça autoriza cobrança direta da matriz sul-coreana
No início de maio, a 3ª Vara Empresarial de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza autorizou, em caráter provisório, a desconsideração da personalidade jurídica da Posco Brasil, permitindo que credores cobrem as dívidas diretamente da matriz na Coreia do Sul. A decisão, publicada em 11 de maio, não significa que o pagamento será imediato, pois a matriz será citada formalmente e poderá apresentar defesa. Além disso, decisões brasileiras não se aplicam automaticamente em território sul-coreano.
A Posco Brasil foi criada em 2011 para atuar na construção da siderúrgica do Pecém (CE), projeto de US$ 5,4 bilhões que durou de 2013 a 2018. Sem estrutura própria, a empresa subcontratou outras para realizar os serviços, e parte delas afirma não ter recebido. As dívidas declaradas são de pelo menos R$ 644 milhões, mas podem chegar a R$ 1 bilhão, segundo Frederico Costa. Entre os credores estão ex-funcionários, pequenas e grandes empresas, e entes públicos como a Fazenda Nacional, o INSS e a Receita Federal.
Pedido de falência com saldo de R$ 109 gera suspeita de fraude
No pedido de autofalência, aceito pela Justiça em setembro de 2025, a Posco Brasil afirmou ter saldo em conta corrente de apenas R$ 109, cerca de R$ 11 mil em ativos disponíveis, um carro avaliado em R$ 70 mil e um terreno em São Gonçalo do Amarante comprado por R$ 1,6 milhão. Os credores acusam a matriz coreana de ter planejado a falência para evitar o pagamento das dívidas, enviando os lucros para a Coreia do Sul. A empresa alegou motivos como a pandemia de Covid-19, recessão econômica e falta de novos contratos.
A Posco é uma multinacional sul-coreana, considerada a maior siderúrgica do país e a sexta maior do mundo. Sua filial brasileira, a Posco Brasil, tinha 99% de participação da Posco Eco & Challenge (antiga Posco Engineering & Construction). A siderúrgica do Pecém ficou pronta, mas muitas fornecedoras não receberam integralmente pelos serviços. A falta de pagamento levou a diversas ações judiciais, culminando no pedido de falência em 2025.



