Movimento falimentar: pedidos de recuperação judicial disparam no Brasil
Pedidos de recuperação judicial disparam no Brasil

O movimento falimentar no Brasil registrou alta expressiva no segundo trimestre de 2026, com 1.200 pedidos de recuperação judicial – um aumento de 15% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Serasa Experian. Esse é o maior número desde o pico da pandemia de covid-19 em 2020.

Cenário econômico desfavorável impulsiona falências

A combinação de juros elevados, inflação persistente e queda no consumo tem sufocado pequenas e médias empresas. De acordo com a economista-chefe da Serasa, Luísa Almeida, "a taxa Selic em 14,25% ao ano inviabiliza o crédito para grande parte do setor produtivo, levando a uma onda de inadimplência e, consequentemente, a pedidos de recuperação judicial".

Os setores mais afetados são comércio varejista, construção civil e serviços. Juntas, essas áreas concentram 70% dos pedidos. A recuperação judicial é um instrumento legal que permite à empresa em dificuldade renegociar dívidas com credores sob supervisão da Justiça, evitando a falência imediata.

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Comparação histórica e impactos regionais

O recorde anterior havia sido registrado no segundo trimestre de 2020, quando 1.350 empresas entraram com pedido de recuperação judicial. Apesar do número atual ser inferior, a trajetória de alta acende alerta. "Estamos vendo uma crise que se arrasta, diferente do choque abrupto da pandemia", explica Almeida.

Regionalmente, São Paulo lidera com 40% dos pedidos, seguido por Rio de Janeiro (18%) e Minas Gerais (12%). As regiões Norte e Nordeste têm participação menor, mas apresentam crescimento proporcionalmente maior em relação ao ano anterior.

Setor jurídico e movimentação nos tribunais

O aumento dos pedidos sobrecarrega o Judiciário. Segundo a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), o tempo médio para processar uma recuperação judicial passou de 18 meses para 24 meses nos últimos dois anos. "Precisamos de mais varas especializadas para dar celeridade aos processos", afirma o presidente da AMB, juiz Ricardo Costa.

Os escritórios de advocacia especializados em direito empresarial registram fila de espera. O sócio do escritório Mello & Advogados, Fernando Mello, relata: "Nunca vimos tanta demanda. Temos pelo menos 50 novos casos por mês, contra 20 no ano passado".

Medidas do governo e perspectivas

O Ministério da Economia anunciou, em junho, um pacote de linhas de crédito subsidiadas para empresas de pequeno porte, com juros de 4% ao ano. Até agora, apenas 12% do valor total de R$ 5 bilhões foi utilizado. Especialistas apontam que a burocracia e as exigências bancárias limitam o acesso.

"O pacote é insuficiente diante da magnitude do problema. Seria necessário um programa mais amplo, com alongamento de prazos e carência", critica o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Roberto Campos Neto.

A perspectiva para o restante de 2026 é de que os pedidos continuem elevados, especialmente se não houver redução da Selic. A Serasa projeta que o número de recuperações judiciais pode chegar a 4.800 no acumulado do ano, superando as 4.200 de 2025.

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